O Creme
– Comprei o creme – sussurrou ela com um risinho, enquanto se sentava numa cadeira ao sol.
A amiga ajeitou as pontas da toalha, limpando um pouco de areia que um dos filhos pequenos levantara em corrida desenfreada à procura da sombra do toldo e deitou-se de barriga para baixo para se secar do banho de mar.
– Foi? – perguntou a mulher deitada, enquanto baixava as alças do fato de banho dos ombros para os braços.
– Foi – confirmou ela sem levantar a voz, enterrando os dedos dos pés na areia escaldante.
– Aquele que eu te disse?
– Sim – respondeu baixinho, sem conseguir descolar o sorriso meio idiota que ostentava desde a primeira frase.
– É muito bom, não é?
Ela olhou em volta e falou ainda mais baixo. A outra não a conseguiu perceber e reclamou sem levantar a cabeça da toalha:
– Não percebi nada, Maria. É bom?
– É – disse ela, levantando a voz, contrariada. – Muito bom.
– Espalhaste bem? – quis saber a outra.
Ela arqueou as sobrancelhas à pergunta, mas a mulher deitada não viu. Estranhou e não respondeu logo. Colocou as palmas das mãos nos braços da cadeira plástica e corrigiu ligeiramente a posição em que estava sentada, assentando mais peso sobre a nádega esquerda. Suavemente, ergueu e desenterrou as pontas dos dedos dos pés, inspeccionando à distância de uma perna esticada a perfeição do verniz vermelho que emergia da areia fina. Sorriu, gostava, sempre gostara, e desde que se lembrava tinha orgulho no perfeito alinhamento em escada dos seus dedos dos pés.
– Se espalhei bem? – inquiriu, retomando a conversa.
– Sim – respondeu o perfil esquerdo da mulher deitada. – Espalhaste bem?
– Acho que sim – informou, olhando para a amiga deitada, esperando um sorriso, que não apareceu.
– É importante – comentou a outra, desinteressadamente. – Por vezes pensamos que as partes mais expostas à agressão…
– Agressão?! – interrompeu estupefacta a mulher sentada, que já se esquecera da simetria que antes apreciava no conjunto dos seus dedos dos pés. – Agressão? – balbuciou, repetindo-se.
– Pois. – A mulher deitada juntou as mãos, sobrepôs uma sobre a outra e apoiou o queixo nas costas da mão direita. Pela primeira vez, olhou para a amiga sentada, que esperava a explicação que ela se preparava para dar e continuou: – Não penses que a coisa se dá só no sítio exposto à…
– Agressão? – sugeriu a mulher sentada, que ainda não digerira a palavra.
– Sim, pode chamar-se assim – disse a outra. – É uma agressão, no sentido em que é uma coisa fora do normal…
A outra concordou com um aceno ligeiro.
– Sim, visto assim – murmurou.
– E nós não passamos a vida nisso, não é? – perguntou a mulher deitada.
A mulher sentada, sem baixar as sobrancelhas arqueadas, limitou-se a concordar:
– Não, não passamos.
A outra ergueu a cabeça e piscou-lhe o olho:
– Não era mau, quero dizer, mas era capaz de cansar. Eu, pelo menos, fico extenuada.
– Ficas?
– Tu não?
– Eu gosto e o creme ajuda…
– É bom – concluiu a deitada – mas o creme não resolve tudo.
– Resolve a parte principal…
– Hum… mas ao fim de um tempo já nem é preciso.
– Não?
– Claro que não. – A mulher deitada fincou os cotovelos na areia, enfiou os dedos no cabelo e baixou a cabeça ao mesmo tempo que deslocava as mãos do centro para os lados penteando-se, ajeitou as alças do bikini, que já haviam subido para os ombros, e sentou-se na toalha olhando em volta. – Estás a vê-los?
– Os miúdos?
– Sim.
– Estão ali – apontou a mulher sentada, desviando o olhar para os respectivos maridos que, do outro lado do toldo, riam à gargalhada.
Rita, a mulher na toalha, acompanhou o olhar de Maria e comentou:
– Ah… mas se fosse pelo Tó… Ele não quer outra coisa…
– Não?! – pasmou Maria.
– O Quim não? – Rita sorria, sem perceber o espanto da amiga.
Maria fixou-se no marido, que lhe sorriu e, depois de devolver o sorriso, voltou-se para Rita, falando em tom meramente informativo:
– Ele gosta mas acho que não é tarado por isso…
– Tarado?! – interrompeu Rita. – O Tó não é tarado!
– Se não quer outra coisa… – depreciou a amiga. – O Quim gosta mas não quer sempre isso…
– Isso o quê?
– Isso… – Maria continuava espantada com a altura a que a amiga falava e agora mais surpreendida ainda com a expressão irada e o tom brusco. – Isso… O creme! – acabou por exclamar o mais baixo que conseguiu.
Rita ouviu e baixou a cabeça. Esticou as pernas, endireitou a toalha e, levantando a cabeça, perguntou mordendo os lábios para não rir:
– Estás a falar de que creme?
A amiga tornou a mudar de posição na cadeira, passando o peso do corpo para a nádega direita.
– E tu?
A amiga não se conteve e deixou escapar uma forte gargalhada.
– Eu… – respirou fundo para se controlar mas percebendo a posição torcida em que a outra se sentava, não aguentou e continuou a rir. – Tu estavas a dizer que compraste… que compraste…
Maria corou. Rita continuava a rir.
– E eu…
– Tu estavas a falar do creme para o sol – ajudou Maria, acompanhando-a nas gargalhadas. – Do protector… Do protector solar…
posted by garfanho # 00:00
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Terça-feira
No tribunal, um episódio qualquer
Sorriu atento e obrigado. Baixou a cabeça com a devida vénia. Respeitosamente evitou que os olhares se cruzassem. Estendeu a mão e cumprimentou-a assexuadamente.
– Boa tarde – disse em tom compenetradamente profissional.
– Boa tarde. – Ela sorriu trocista, quase gaiata. – Ainda que, salvo melhor opinião, o tempo pudesse estar bem mais agradável.
Automaticamente ele olhou pela janela para a rua. Chovia. Fixou-se no sorriso dela e nos olhos brilhantes que, espantou-se, via agora pela primeira vez. Hesitou e calou o comentário. Censurou-se o atrevimento, o arrojo, a desfaçatez mas era o que lhe apetecia dizer: “A doutora tem um sorriso e uns olhos lindos.”
– Merecíamos melhor – acabou por ouvir-se dizer, sem perceber porque o dizia.
Ela riu-se e largou-lhe a mão.
– Provavelmente, doutor, provavelmente.
O doutor riu-se baixinho e sentiu os olhos inquisidores da Procuradora e a voz do arguido, em fundo, atrás de si:
– Posso ir-me embora?
A funcionária inquiriu a Meritíssima Juiz com o olhar. A titular do órgão de soberania, que já não julgava em nome do povo mas apenas de um Estado (de coisas), encolheu os ombros, aquiesceu com a cabeça e comentou alto:
– Afinal, ainda bem que está a chover.
O advogado concordou e lembrou-se que o legislador provavelmente não seria dessa opinião.
O arguido, que ainda o era porque a sentença absolutória ainda não transitara em julgado, resmungou qualquer coisa com maus modos mas, encolhido sob o olhar mortífero da Meritíssima, baixou a cabeça, remoeu uma boa tarde, que muito lhe deve ter custado a sair e, em silêncio, seguiu o alinhamento do banco até ao corredor lateral e saiu pela primeira porta que encontrou.
A funcionária deu um salto, empurrando a cadeira.
– Ele volta, Patrícia, deixe-se estar que ele volta – recomendou calmamente a Meritíssima Juiz.
A funcionária estacou ainda em pé, sorriu à recomendação mas voltou-se para porta por onde saíra o arguido, dizendo:
– Não tem outra hipótese…
– Outras hipóteses, tinha – murmurou a Juiz –, não me parece é que ele as vá aproveitar.
O arguido reapareceu redobrando a sua natural cara de parvo e aspecto geral de apurado desleixo e refinada pouca esperteza.
– Aaaaaah! – baliu como um bezerro tresmalhado.
– Já? – perguntou a Juiz, sem expressão. – Já voltou?
Por uma vez, viu-se uma centelha de qualquer coisa no olhar continuamente baço do arguido e, triunfante, concordou animadamente com a Juiz, como se isso fosse algo de bom:
– Já – fez uma pausa para saborear o momento e completou sorrindo de orelha a orelha: –, mas ainda não.
Surpreendidos, os presentes riram-se e a Procuradora decidiu ali, exactamente ali, naquela centelha, naquele triunfo, naquela resposta, que não ia recorrer. Escusava de se dar ao trabalho: não só a sentença era legalmente correcta e bem fundamentada, como o tipo dentro em breve estaria de volta ao banco corrido onde se sentava já com tanto à vontade.
– Adeus – disse o arguido, sorrindo como se fosse o dono do mundo, mão na porta entreaberta que dava para o átrio e um pé já do lado de fora, só para garantir. – Bom fim-de-semana!
A funcionária ficou satisfeita por ver os bancos vazios da sala de audiências. A justiça não é, a maior parte do tempo, um espectáculo edificante.
– E o doutor? – interrogou a Juiz, empurrando a cadeira para trás e ficando na ponta do assento. – Vai passar o fim-de-semana aí ou está à espera que a chuva passe?
O advogado riu-se, soltou um abafado ah! como se tivesse sido apanhado a fazer alguma coisa que não devia e tivesse seis anos e, sem responder, estendeu a mão na direcção da Senhora Procuradora e desejou-lhe boa tarde.
Em pé, a Excelentíssima Magistrada Judicial acompanhou com os olhos a súbita desenvoltura do advogado que parecia ter sido empurrado por uma mão invisível e, empurrando o processo com a ponta da caneta para não lhe tocar, solicitou à funcionária que o levasse para a secção. Por vezes, sentia-se impotente, como ali, naquele processo, e já nem sabia se era ela que julgava e decidia ou se era um mero elo de uma engrenagem estranha, absurda e, quase, irreal que, atabalhoadamente e às cegas mas em pose formal de quem tudo sabe, geria um Estado (de coisas) com base em leis feitas à medida para interesses e interessados concretos. Ali, concretamente ali, sentira-se apenas uma transmissora de uma lei estúpida que, por acaso, se tinha de aplicar e injustamente absolver aquele pobre diabo, que haveria de vir a cair mais à frente por algo menos grave mas que, não correspondendo a interesses estabelecidos, não havia de ter a complacência de uma lei qualquer feita à medida.
– Bom fim-de-semana – desejou a Procuradora estendendo a mão mas sem levantar os olhos.
– Igualmente – respondeu o advogado afastando-se e, passando pela funcionária, ainda se despediu: – Bom fim-de-semana, d. Patrícia.
– Obrigada, doutor – respondi. – Bom fim de semana para si.
posted by garfanho # 15:27
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Sexta-feira
(o homem-queque cinco.2)
Estupefacto, o homem-queque via o pastel de feijão aproximar-se lentamente. De três em três passos, para alternar a perna, o pastel fazia uma espécie de bailado em câmara lenta: levantava a perna, torcia a anca, mexia os lábios e sorria. O homem-queque fixara-se nos movimentos pendulares do outro, mas agora que o pastel se aproximava tentava ler-lhe os lábios. O pastel dizia qualquer coisa. Sempre a mesma coisa.
– Tens a certeza que é ele? – perguntou o homem-queque, alarmado.
– É – respondeu o pastel de nata, sem levantar os olhos do jornal.
– Mas o que é que ele vem a fazer?
O pastel de nata olhou por cima do jornal e riu-se.
– E o gajo está a dizer qualquer coisa – acrescentou o espantado homem-queque. – Cada vez que dá aquele passo ridículo diz qualquer coisa e ri-se, estás a ver?
– É normal – mastigou o pastel de nata a meia voz, de novo a ler. – O gajo é assim.
– Mas o que é que ele está a dizer? – insistiu o homem-queque. – O gajo é doido ou quê?
O pastel de nata encolheu os ombros em silêncio. O homem-queque concentrou-se na decifração do movimentos dos lábios do pastel de feijão.
– Toma! – gritou. – Toma!
O pastel de nata baixou o jornal, surpreendido pelo “toma”, e virou-se para o homem-queque:
– Toma, o quê?
– Toma! – exclamou o homem-queque. – É o que o gajo diz sempre que levanta a perna.
– Toma? – o pastel de nata olhou com atenção para o pastel de feijão que sorria na sua direcção.
– Toma! – repetiu o homem-queque. – Viste? Viste? – O pastel de nata acenou que sim. Excitado o homem-queque descreveu com entusiasmo quase infantil: – Levanta a perna, torce-se, diz “toma” e ri-se… Viste?! Outra vez… Não é normal…
– Ah… O tipo… – começou o pastel de nata, abafando o riso, todavia a rápida aproximação do pastel de feijão, que normalizara o andar, impediu-o de se explicar e tentar justificar o estranho comportamento e andar do outro bolo.
O pastel de feijão cumprimentou efusivamente o pastel de nata, que se levantou para lhe apertar a mão e pareceu surpreendido com o abraço que o envolveu.
– É este? – perguntou o pastel de feijão, afrouxando o amplexo e virando-se de esguelha para o homem-queque.
– É – respondeu o pastel de nata, justificando com um sorriso e vários movimentos de sobrancelhas, o comportamento do pastel de feijão ao homem-queque, que se levantara educadamente durante o abraço dos outros bolos. – É ele o queque de quem te falei…
O homem-queque estendeu a mão na direcção do pastel de feijão, que abria a boca num esgar alarve a fazer as vezes de um sorriso.
– Estou a fer… estou a fer… – comentou enigmaticamente o pastel de feijão, sem praticamente fechar as escancaradas mandíbulas, e estendeu molemente a mão na direcção da mão do homem-queque que a apertou, incomodado com frouxidão da mão do pastel, que lhe deixou a sensação de apertar uma gigantesca e quase gasosa amiba.
– Abílio – nomeou-se o homem-queque, procurando separar-se da gelatinosa mão que se colara à sua.
– Abílio, hã?! – riu o pastel, sem descolar a sua mão direita da do agoniado homem-queque, que ainda o viu, com um nó a aumentar na garganta, a passar a mão esquerda pelas farripas oleosas e rasteiras de cabelo alaranjado que, entre a crosta acastanhada da massa torrada em demasia e a brancura do açúcar em pó disperso de forma negligente, lhe coloriam a cabeça, levantando uma poeira amarelada de açucares outrora brancos e arrancando minúsculas crostas da massa torrada e de civilizações de bolor, que se depositaram nos ombros indistintamente largos do pastel de feijão. – Belo nome, rapaz, belo nome! – concluiu a boca aberta do pastel, como se dissesse uma graçola qualquer.
– Abílio, o verdadeiro homem-queque! – exclamou embaraçado o pastel de nata procurando chamar as atenções e pegar na conversa antes que o pastel de feijão arruinasse toda a credibilidade que andara a apregoar ao incrédulo homem-queque. – Se calhar, podemos sentar-nos – sugeriu, apontando para o banco, enquanto, em pânico, sentia as folhas estaladiças da massa folhada amolecer ante a expressão de espanto e horror do homem-queque. O pastel de nata era fraco de nervos e, às vezes, contrariedades sem expressão afectavam-no psicológica e fisicamente de forma inversamente proporcional à sua importância. Era o caso, sentia-o, mas não o conseguia evitar e deixou-se cair pesadamente no banco, tentando não se desfazer.
– Ah! – soltou o pastel de feijão, largando a mão do homem-queque, que se apressou a sentar numa das pontas do banco, deixando o pastel de nata como cordão higiénico.
O pastel de nata sorriu atrapalhado e o homem-queque lembrou-se e sussurrou-lhe:
– Este é que é o mãozinhas de veludo?
O pastel de nata amochou mas, contrariado, acenou com a cabeça que sim, que era.
posted by garfanho # 14:00
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Terça-feira
(o homem-queque, cinco)
– Conheço o gajo que te resolve isso num instante – anunciara o pastel de nata, convicto, em resposta às queixas lombares do homem-queque.
– O gajo?! – O dorido homem bolo não gostara do género sexual da solução apresentada para o seu mau jeito nas costas e não o escondera: tom depreciativo, muitas caretas, olhos arremelgados e o indicador e o dedo médio juntos a entrar e a sair da boca, sem tocar em nada, com o final num esgar de nojo e simulação de golfada de vómito. – O gajo?!
O pastel de nata afinara:
– Queres ficar bom das costas ou queres festinhas?
O homem-queque escolhera as festinhas:
– Definitivamente as festinhas.
Mas o pastel de nata pegou no telemóvel e avançou para a solução:
– Um pastel de feijão! – anunciou animado.
O homem-queque olhou para o telemóvel a deslocar-se até ao ouvido do pastel de nata, ouviu o anúncio com um arrepio e perguntou:
– Um pastel de feijão?
– O! – sorriu o pastel de nata, mostrando-lhe o telemóvel, como se o homem-queque pudesse ver o tal bolo milagroso que lhe ia curar o mau jeito nas costas. – O pastel de feijão! O mãozinhas de veludo!
– Mãozinhas de veludo?! – tremeu o homem-queque.
– Mãozinhas de veludo, meu caro – repetiu o pastel de nata, certificando-se que o telemóvel estava a chamar. – O gajo é difícil de apanhar. É um senhor, pá, um senhor.
– Mãozinhas de veludo?! – o homem-queque ainda tremia.
– Mágico. O tipo é mágico – apregoou o pastel de nata, enquanto tornava a ligar. – Tens sorte que o gajo me deve uns favores…
– Favores?
– Três!
– Três favores? O mãozinhas de veludo deve-te três favores?
– Yep!
– Porquê três?
– Uma bola de Berlim, uma duchaise e uma pirâmide – enumerou o pastel de nata.
O homem-queque reconheceu com uma ligeira vénia a capacidade engajadora do pastel de nata e os seus vastos conhecimentos nos bas-fonds da pastelaria e similares.
– E mãozinhas de veludo porquê? – voltou o homem-queque ao pastel de feijão.
Ainda inchado da enumeração anterior e da consequente vénia, o pastel de nata declamou:
– Esse justo cognome adveio-lhe de duas épocas como massagista de uma equipa daqueles bonecos plásticos um bocado raquíticos que decoram os bolos de aniversário em forma de relvado sintético…
– Massagista… – troçou o homem-queque, prenhe de preconceitos e injustas ideias feitas. – Duas épocas?! Quer dizer que já não é?
– Não – disse lacónico o pastel de nata, abanando a cabeça às injustiças do mundo do desporto de pasteleria.
– Então, o mãozinhas de veludo não prestava, era? – picou o homem-queque.
– O mãozinhas foi vítima do seu próprio sucesso, da magnificência da sua própria arte – o pastel de nata discursava com frémito religioso – e foi impiedosa e cruelmente forçado a abandonar as suas práticas quase milagrosas por ordens expressas da vil direcção da agremiação desportiva do expositor quatro, que não soube ou não quis lidar com uma passageira, mas grave, isso é verdade, crise de resultados desportivos, que, injusta e prepotentemente, justificavam com as estranhas lesões contraídas pelos atrofiados e mirrados jogadores, que os levavam a passar mais tempo deitados no sucedâneo de relva aos cuidados do mãozinhas de veludo do que em pé a lutar como uns frangos de aviário pelo horrível jersey que a instituição os obrigava a usar. – O pastel de nata fez uma pausa para apreciar a atenção quase deslumbrada do homem-queque e terminou: – Meu caro, o mãozinhas de veludo, que te vai deixar mais direito e rijo que um gressino, era o melhor, o melhor dos curiosos das massagens. Agora é que se desleixou um bocadinho – referiu em contra-ciclo, antes de começar a falar ao telemóvel com o pastel de feijão e cobrar-lhe um dos favores devidos, no caso, a bola de Berlim.
posted by garfanho # 14:04
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Sexta-feira
a verdade é que quero postar e não consigo (afinal parece que consigo, tenho é de dizer que não consigo para o conseguir, pois, assim que escrevi que não consigo já estou a fazê-lo). É triste, digo eu, quando se tem de negar à partida uma ciência que se conhece, ou melhor, que se desconhece, parece. É triste, reformulo, quando se tem de escrever que não se consegue escrever para se poder escrever. Não é bom sinal, nada bom sinal…
Digam-me depressa o nome de um complexo, daqueles complexos muito complexos que juntam não sei quantas vitaminas, sais minerais, guardas prisionais para radicais livres, e mais não sei quantos químicos todos absolutamente naturais, filhos das melhores pipetas e enteados dos mais nobres tubos de ensaio. Diga-me nomes, receitas, mezinhas, ervas que se enrolem e se fumem, bebidas energéticas ou, pelo menos, sorriam-me que eu acho que preciso urgentemente de qualquer coisa. Na verdade, digo eu, quer-me parecer que, seja como for, já vêm tarde. Não preciso urgentemente… precisei e agora será apenas uma espécie de penso rápido num pescoço degolado…
"Sem "saída"", como li algures, sinto que preciso de um amplexo de um tal complexo... mas, nem sei, sequer, se ainda tenho neurónios suficientes que possam ser ajudados. Parece-me que tenho três: dois que estão a escrever e um que está a ler. E se o que está ler é que é o saudável, os outros dois já não têm safa possível. Impossível. Pelo que escrevem, estão condenados. Já estão mortos e enterrados só que não sabem, não têm quem lhes diga. Agora, meus amigos, nem com complexos, nem com amplexos de complexos, nem sequer, com complexos amplexos de complexos complexos. Bau-bau! Já eram. Kaput. Paz à vossa alma (se é que a tinham)…
A minha esperança é o neurónio leitor, esse que com um sorrisinho de quem diz eu bem te avisei que isto não ia acabar bem, aquele mesmo olhar que o Afonso Henriques grama de há oitocentos anos a esta parte da sua santa mãezinha…
A minha esperança, recomeço, que ali já me perdi, reside unicamente (desesperada esperança…) no neurónio que lê e ainda tem, espero, algum sentido critico, tanto que não me permita postar isto, que um dia mais tarde poderá ser usado contra mim, arruinar a minha carreira politica e justificar o meu internamento compulsivo em instituição de saúde mental. Mas, quer-me parecer, pela rapidez com que estou a escrever, qual dr. mabuse a escrever o seu testamento, o terceiro neurónio já era e os outros dois - estes dois, nós dois!, gritam eles, como se eu não fosse mais que o conjunto composto por um miserável par de neurónios fundidos - escrevem como se não houvesse amanhã... mas há, e amanhã é sábado e pelo que tenho produzido hoje, amanhã vai ser dia de trabalho…
e agora, porque fui interrompido e um dos neurónios se dispersou, já não consigo escrever mais nada, por isso vou aguardar serenamente um nome, um complexo, um comentário ("que comentário?! como comentar isto?! o que é isto?!") enquanto mantenho um ar atarefado e um sorriso enigmático como se estivesse a pensar nalguma coisa.
ah!
e agora fico de ar apalermado (não consegui manter o ar atarefado, nem o sorriso enigmático que, na verdade, já era um bocado apalermado), mão no rato, a carregar, de cinco em cinco massachusetts, no botão virtual que actualiza o blog e a caixa de comentários
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