sábado, 17 de novembro de 2007

hi

– É terrível, a inveja.
– É do pior!
– Mas, às vezes, não a conseguimos evitar.
– Ultrapassa-nos!
– Atropela-nos e leva-nos a tomar decisões estúpidas.
– Completamente!
– Esquecemo-nos do que somos, de quem somos, do que devemos ser e ficamos cegos…
– Completamente cegos!
– E depois arrependemo-nos.
– Arrependeste-te?
– Para dizer a verdade…
– Diz!
– A verdade.
– Boa! E arrependeste-te de ter agido sob a forte comoção provocada por um ataque agudo e descontrolado de inveja?
– Para dizer a verdade…
– Já disseste!
– Ah… pois. Não.
– Não te arrependeste?
– Não, agi debaixo de uma forte e incontrolável comoção que me afastou da minha esmerada educação e sentido de proporção…
– A inveja esmagou-te!
– Ora… nem mais!
– Não foste tu que praticaste a aleivosia, a mal feitoria, o acto danoso e mesquinho…
– Também não é preciso exagerares! Mas não, não fui. Em consciência, não fui.
– Foi a inveja!
– Que me esmagou!
– E a chave?
– Ah!… A chave era minha.
– E a mão?
– Também.
– Ah! Então...
– Então, nada! Eu, a minha mão e a minha chave fomos apenas instrumentos da inveja. Simples instrumentos.
– E o carro do homem?
– O objecto e a vitima.
– Da tua inveja.
– Da inveja. Que ela se tenha corporizado em mim foi um acaso.
– Potenciado pela existência de uma chave pontiaguda.
– Não só potenciado. Na verdade, a chave é que deu corpo à inveja…
– Olha!
– O quê?
– O gajo!
– Pois é. Boa!
– Achas que ele vai ver o risco?
– Espero que sim. A inveja precisa de resultados e, se pensarmos bem, o objecto da inveja não é o objecto mas o sujeito que possui o que se inveja.
– Estou a ver. Por isso queres ver o tipo a espumar, a sentir-se impotente perante as adversidades da vida, a sentir-se esmagado por um risco a todo o comprimento do carrinho novo.
– Nem mais.
– Estás com azar… Não viu!
– Mas vê. Vai ver, vais ver.
– Vou?
– Vais, que a inveja também lhe despejou o pneu do lado do pendura.
– E nós?!... Ficamos aqui?!
– O tipo não foi estacionar lá para o fundo quando tinha aqui lugares?
– Foi.
– Eu não lhe fiz sinal?
– Fizeste.
– Eu, educado e solícito, não lhe indiquei de forma graciosa e cortês um belíssimo lugar de estacionamento iluminado e seguro?
– Pois foi, ainda que o graciosa…
– Isso é um pormenor e, aliás, um choninhas que tem dinheiro para ter uma máquina daquelas tem, com toda a certeza, um euro para compensar a nossa boa-vontade e pagar os nossos serviços. Não há almoços grátis, meu caro.
– Nem estacionamentos à borla!

posted by garfanho # 14:14
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Terça-feira


– Somos egoístas!
– Somos?
– Sim, somos seres completamente egoístas.
– Porquê?
– Sei lá porquê… Somos!
– Eu não acho.

– Ouviste? Eu não acho.
– Mas somos e o facto de tu achares ou não, não faz diferença nenhuma. Somos egoístas, somos crianças mimadas, somos seres desprovidos de um sentimento genuíno e íntegro de partilha, de…
– Ouve lá, o que é que se passou?
– Com quê?... Nada! Não se passou nada.
– Devias ter dito ao contrário.
– O quê?
– Primeiro dizias que não se passou nada e depois é que perguntavas com quê. Assim, deste logo a entender que sabias do que eu estava a falar e que, na verdade, se passou alguma coisa. Se começasses por exclamar aborrecido e contrariado que não se passou nada e no fim perguntasses com quê, já me deixavas na dúvida e obrigavas-me a conjecturar se quisesse continuar a conversa.
– É capaz. És capaz de ter razão.
– E afinal?
– Afinal, o quê?
– Outro erro: devias ter dito imediatamente que não se passou nada. Assim, a quereres chutar para canto, só demonstras que se passou alguma coisa que fez despoletar essa raiva contra a humanidade.
– Não é contra a humanidade… Aliás, não é contra ninguém.
– Não?!... Acusas-nos a todos de sermos uns egoístas empedernidos e sem possibilidade de salvação e isso não é ser contra ninguém?! A mim quer-me parecer que é contra toda a gente.
– Visto assim.
– Tu vestes o que tu quiseres! Agora, não podes é andar para aí a pregar que somos todos egoístas. Pior: completamente egoístas!
– Mas é o que eu sinto.
– Que és ou que somos?
– Que sou e que somos.
– Ah… e… É teu ou meu?
– Teu.
– Não te vás embora! Volto já.

– Olha para estes gajos, pá! 50 cêntimos!... Eu a fazer a manobra toda, a tirar o contentor para o lado para suas excelências estacionarem e os tipos, nem boa noite, nem obrigado, nem nada e dão-me 50 cêntimos, a olhar para o chão, com maus modos… Como se fosse uma esmola… olha que mesmo assim.
– Egoístas!
– Completamente egoístas!

posted by garfanho # 15:06
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Quinta-feira


Ainda abro o blogger. Ainda ponho um cigarro apagado entre os lábios. Ainda olho encarecidamente para o ecrã e depois, perdido, para a rua. Ainda escrevo isto à espera que se transforme noutra coisa qualquer. Ainda penso em frases, em situações, em personagens. Ainda faço isso tudo na esperança de me ver aparecer ou de me sentir desaparecer no que pudesse escrever. Ainda espero escrever, espero mesmo, mas hoje isso ainda não vai acontecer. Ainda não.

posted by garfanho # 13:24
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Quarta-feira

O Creme

– Comprei o creme – sussurrou ela com um risinho, enquanto se sentava numa cadeira ao sol.
A amiga ajeitou as pontas da toalha, limpando um pouco de areia que um dos filhos pequenos levantara em corrida desenfreada à procura da sombra do toldo e deitou-se de barriga para baixo para se secar do banho de mar.
– Foi? – perguntou a mulher deitada, enquanto baixava as alças do fato de banho dos ombros para os braços.
– Foi – confirmou ela sem levantar a voz, enterrando os dedos dos pés na areia escaldante.
– Aquele que eu te disse?
– Sim – respondeu baixinho, sem conseguir descolar o sorriso meio idiota que ostentava desde a primeira frase.
– É muito bom, não é?
Ela olhou em volta e falou ainda mais baixo. A outra não a conseguiu perceber e reclamou sem levantar a cabeça da toalha:
– Não percebi nada, Maria. É bom?
– É – disse ela, levantando a voz, contrariada. – Muito bom.
– Espalhaste bem? – quis saber a outra.
Ela arqueou as sobrancelhas à pergunta, mas a mulher deitada não viu. Estranhou e não respondeu logo. Colocou as palmas das mãos nos braços da cadeira plástica e corrigiu ligeiramente a posição em que estava sentada, assentando mais peso sobre a nádega esquerda. Suavemente, ergueu e desenterrou as pontas dos dedos dos pés, inspeccionando à distância de uma perna esticada a perfeição do verniz vermelho que emergia da areia fina. Sorriu, gostava, sempre gostara, e desde que se lembrava tinha orgulho no perfeito alinhamento em escada dos seus dedos dos pés.
– Se espalhei bem? – inquiriu, retomando a conversa.
– Sim – respondeu o perfil esquerdo da mulher deitada. – Espalhaste bem?
– Acho que sim – informou, olhando para a amiga deitada, esperando um sorriso, que não apareceu.
– É importante – comentou a outra, desinteressadamente. – Por vezes pensamos que as partes mais expostas à agressão…
– Agressão?! – interrompeu estupefacta a mulher sentada, que já se esquecera da simetria que antes apreciava no conjunto dos seus dedos dos pés. – Agressão? – balbuciou, repetindo-se.
– Pois. – A mulher deitada juntou as mãos, sobrepôs uma sobre a outra e apoiou o queixo nas costas da mão direita. Pela primeira vez, olhou para a amiga sentada, que esperava a explicação que ela se preparava para dar e continuou: – Não penses que a coisa se dá só no sítio exposto à…
– Agressão? – sugeriu a mulher sentada, que ainda não digerira a palavra.
– Sim, pode chamar-se assim – disse a outra. – É uma agressão, no sentido em que é uma coisa fora do normal…
A outra concordou com um aceno ligeiro.
– Sim, visto assim – murmurou.
– E nós não passamos a vida nisso, não é? – perguntou a mulher deitada.
A mulher sentada, sem baixar as sobrancelhas arqueadas, limitou-se a concordar:
– Não, não passamos.
A outra ergueu a cabeça e piscou-lhe o olho:
– Não era mau, quero dizer, mas era capaz de cansar. Eu, pelo menos, fico extenuada.
– Ficas?
– Tu não?
– Eu gosto e o creme ajuda…
– É bom – concluiu a deitada – mas o creme não resolve tudo.
– Resolve a parte principal…
– Hum… mas ao fim de um tempo já nem é preciso.
– Não?
– Claro que não. – A mulher deitada fincou os cotovelos na areia, enfiou os dedos no cabelo e baixou a cabeça ao mesmo tempo que deslocava as mãos do centro para os lados penteando-se, ajeitou as alças do bikini, que já haviam subido para os ombros, e sentou-se na toalha olhando em volta. – Estás a vê-los?
– Os miúdos?
– Sim.
– Estão ali – apontou a mulher sentada, desviando o olhar para os respectivos maridos que, do outro lado do toldo, riam à gargalhada.
Rita, a mulher na toalha, acompanhou o olhar de Maria e comentou:
– Ah… mas se fosse pelo Tó… Ele não quer outra coisa…
– Não?! – pasmou Maria.
– O Quim não? – Rita sorria, sem perceber o espanto da amiga.
Maria fixou-se no marido, que lhe sorriu e, depois de devolver o sorriso, voltou-se para Rita, falando em tom meramente informativo:
– Ele gosta mas acho que não é tarado por isso…
– Tarado?! – interrompeu Rita. – O Tó não é tarado!
– Se não quer outra coisa… – depreciou a amiga. – O Quim gosta mas não quer sempre isso…
– Isso o quê?
– Isso… – Maria continuava espantada com a altura a que a amiga falava e agora mais surpreendida ainda com a expressão irada e o tom brusco. – Isso… O creme! – acabou por exclamar o mais baixo que conseguiu.
Rita ouviu e baixou a cabeça. Esticou as pernas, endireitou a toalha e, levantando a cabeça, perguntou mordendo os lábios para não rir:
– Estás a falar de que creme?
A amiga tornou a mudar de posição na cadeira, passando o peso do corpo para a nádega direita.
– E tu?
A amiga não se conteve e deixou escapar uma forte gargalhada.
– Eu… – respirou fundo para se controlar mas percebendo a posição torcida em que a outra se sentava, não aguentou e continuou a rir. – Tu estavas a dizer que compraste… que compraste…
Maria corou. Rita continuava a rir.
– E eu…
– Tu estavas a falar do creme para o sol – ajudou Maria, acompanhando-a nas gargalhadas. – Do protector… Do protector solar…

posted by garfanho # 00:00
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Terça-feira

No tribunal, um episódio qualquer

Sorriu atento e obrigado. Baixou a cabeça com a devida vénia. Respeitosamente evitou que os olhares se cruzassem. Estendeu a mão e cumprimentou-a assexuadamente.
– Boa tarde – disse em tom compenetradamente profissional.
– Boa tarde. – Ela sorriu trocista, quase gaiata. – Ainda que, salvo melhor opinião, o tempo pudesse estar bem mais agradável.
Automaticamente ele olhou pela janela para a rua. Chovia. Fixou-se no sorriso dela e nos olhos brilhantes que, espantou-se, via agora pela primeira vez. Hesitou e calou o comentário. Censurou-se o atrevimento, o arrojo, a desfaçatez mas era o que lhe apetecia dizer: “A doutora tem um sorriso e uns olhos lindos.”
– Merecíamos melhor – acabou por ouvir-se dizer, sem perceber porque o dizia.
Ela riu-se e largou-lhe a mão.
– Provavelmente, doutor, provavelmente.
O doutor riu-se baixinho e sentiu os olhos inquisidores da Procuradora e a voz do arguido, em fundo, atrás de si:
– Posso ir-me embora?
A funcionária inquiriu a Meritíssima Juiz com o olhar. A titular do órgão de soberania, que já não julgava em nome do povo mas apenas de um Estado (de coisas), encolheu os ombros, aquiesceu com a cabeça e comentou alto:
– Afinal, ainda bem que está a chover.
O advogado concordou e lembrou-se que o legislador provavelmente não seria dessa opinião.
O arguido, que ainda o era porque a sentença absolutória ainda não transitara em julgado, resmungou qualquer coisa com maus modos mas, encolhido sob o olhar mortífero da Meritíssima, baixou a cabeça, remoeu uma boa tarde, que muito lhe deve ter custado a sair e, em silêncio, seguiu o alinhamento do banco até ao corredor lateral e saiu pela primeira porta que encontrou.
A funcionária deu um salto, empurrando a cadeira.
– Ele volta, Patrícia, deixe-se estar que ele volta – recomendou calmamente a Meritíssima Juiz.
A funcionária estacou ainda em pé, sorriu à recomendação mas voltou-se para porta por onde saíra o arguido, dizendo:
– Não tem outra hipótese…
– Outras hipóteses, tinha – murmurou a Juiz –, não me parece é que ele as vá aproveitar.
O arguido reapareceu redobrando a sua natural cara de parvo e aspecto geral de apurado desleixo e refinada pouca esperteza.
– Aaaaaah! – baliu como um bezerro tresmalhado.
– Já? – perguntou a Juiz, sem expressão. – Já voltou?
Por uma vez, viu-se uma centelha de qualquer coisa no olhar continuamente baço do arguido e, triunfante, concordou animadamente com a Juiz, como se isso fosse algo de bom:
– Já – fez uma pausa para saborear o momento e completou sorrindo de orelha a orelha: –, mas ainda não.
Surpreendidos, os presentes riram-se e a Procuradora decidiu ali, exactamente ali, naquela centelha, naquele triunfo, naquela resposta, que não ia recorrer. Escusava de se dar ao trabalho: não só a sentença era legalmente correcta e bem fundamentada, como o tipo dentro em breve estaria de volta ao banco corrido onde se sentava já com tanto à vontade.
– Adeus – disse o arguido, sorrindo como se fosse o dono do mundo, mão na porta entreaberta que dava para o átrio e um pé já do lado de fora, só para garantir. – Bom fim-de-semana!
A funcionária ficou satisfeita por ver os bancos vazios da sala de audiências. A justiça não é, a maior parte do tempo, um espectáculo edificante.
– E o doutor? – interrogou a Juiz, empurrando a cadeira para trás e ficando na ponta do assento. – Vai passar o fim-de-semana aí ou está à espera que a chuva passe?
O advogado riu-se, soltou um abafado ah! como se tivesse sido apanhado a fazer alguma coisa que não devia e tivesse seis anos e, sem responder, estendeu a mão na direcção da Senhora Procuradora e desejou-lhe boa tarde.
Em pé, a Excelentíssima Magistrada Judicial acompanhou com os olhos a súbita desenvoltura do advogado que parecia ter sido empurrado por uma mão invisível e, empurrando o processo com a ponta da caneta para não lhe tocar, solicitou à funcionária que o levasse para a secção. Por vezes, sentia-se impotente, como ali, naquele processo, e já nem sabia se era ela que julgava e decidia ou se era um mero elo de uma engrenagem estranha, absurda e, quase, irreal que, atabalhoadamente e às cegas mas em pose formal de quem tudo sabe, geria um Estado (de coisas) com base em leis feitas à medida para interesses e interessados concretos. Ali, concretamente ali, sentira-se apenas uma transmissora de uma lei estúpida que, por acaso, se tinha de aplicar e injustamente absolver aquele pobre diabo, que haveria de vir a cair mais à frente por algo menos grave mas que, não correspondendo a interesses estabelecidos, não havia de ter a complacência de uma lei qualquer feita à medida.
– Bom fim-de-semana – desejou a Procuradora estendendo a mão mas sem levantar os olhos.
– Igualmente – respondeu o advogado afastando-se e, passando pela funcionária, ainda se despediu: – Bom fim-de-semana, d. Patrícia.
– Obrigada, doutor – respondi. – Bom fim de semana para si.

posted by garfanho # 15:27
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Sexta-feira

(o homem-queque cinco.2)

Estupefacto, o homem-queque via o pastel de feijão aproximar-se lentamente. De três em três passos, para alternar a perna, o pastel fazia uma espécie de bailado em câmara lenta: levantava a perna, torcia a anca, mexia os lábios e sorria. O homem-queque fixara-se nos movimentos pendulares do outro, mas agora que o pastel se aproximava tentava ler-lhe os lábios. O pastel dizia qualquer coisa. Sempre a mesma coisa.
– Tens a certeza que é ele? – perguntou o homem-queque, alarmado.
– É – respondeu o pastel de nata, sem levantar os olhos do jornal.
– Mas o que é que ele vem a fazer?
O pastel de nata olhou por cima do jornal e riu-se.
– E o gajo está a dizer qualquer coisa – acrescentou o espantado homem-queque. – Cada vez que dá aquele passo ridículo diz qualquer coisa e ri-se, estás a ver?
– É normal – mastigou o pastel de nata a meia voz, de novo a ler. – O gajo é assim.
– Mas o que é que ele está a dizer? – insistiu o homem-queque. – O gajo é doido ou quê?
O pastel de nata encolheu os ombros em silêncio. O homem-queque concentrou-se na decifração do movimentos dos lábios do pastel de feijão.
– Toma! – gritou. – Toma!
O pastel de nata baixou o jornal, surpreendido pelo “toma”, e virou-se para o homem-queque:
– Toma, o quê?
– Toma! – exclamou o homem-queque. – É o que o gajo diz sempre que levanta a perna.
– Toma? – o pastel de nata olhou com atenção para o pastel de feijão que sorria na sua direcção.
– Toma! – repetiu o homem-queque. – Viste? Viste? – O pastel de nata acenou que sim. Excitado o homem-queque descreveu com entusiasmo quase infantil: – Levanta a perna, torce-se, diz “toma” e ri-se… Viste?! Outra vez… Não é normal…
– Ah… O tipo… – começou o pastel de nata, abafando o riso, todavia a rápida aproximação do pastel de feijão, que normalizara o andar, impediu-o de se explicar e tentar justificar o estranho comportamento e andar do outro bolo.
O pastel de feijão cumprimentou efusivamente o pastel de nata, que se levantou para lhe apertar a mão e pareceu surpreendido com o abraço que o envolveu.
– É este? – perguntou o pastel de feijão, afrouxando o amplexo e virando-se de esguelha para o homem-queque.
– É – respondeu o pastel de nata, justificando com um sorriso e vários movimentos de sobrancelhas, o comportamento do pastel de feijão ao homem-queque, que se levantara educadamente durante o abraço dos outros bolos. – É ele o queque de quem te falei…
O homem-queque estendeu a mão na direcção do pastel de feijão, que abria a boca num esgar alarve a fazer as vezes de um sorriso.
– Estou a fer… estou a fer… – comentou enigmaticamente o pastel de feijão, sem praticamente fechar as escancaradas mandíbulas, e estendeu molemente a mão na direcção da mão do homem-queque que a apertou, incomodado com frouxidão da mão do pastel, que lhe deixou a sensação de apertar uma gigantesca e quase gasosa amiba.
– Abílio – nomeou-se o homem-queque, procurando separar-se da gelatinosa mão que se colara à sua.
– Abílio, hã?! – riu o pastel, sem descolar a sua mão direita da do agoniado homem-queque, que ainda o viu, com um nó a aumentar na garganta, a passar a mão esquerda pelas farripas oleosas e rasteiras de cabelo alaranjado que, entre a crosta acastanhada da massa torrada em demasia e a brancura do açúcar em pó disperso de forma negligente, lhe coloriam a cabeça, levantando uma poeira amarelada de açucares outrora brancos e arrancando minúsculas crostas da massa torrada e de civilizações de bolor, que se depositaram nos ombros indistintamente largos do pastel de feijão. – Belo nome, rapaz, belo nome! – concluiu a boca aberta do pastel, como se dissesse uma graçola qualquer.
– Abílio, o verdadeiro homem-queque! – exclamou embaraçado o pastel de nata procurando chamar as atenções e pegar na conversa antes que o pastel de feijão arruinasse toda a credibilidade que andara a apregoar ao incrédulo homem-queque. – Se calhar, podemos sentar-nos – sugeriu, apontando para o banco, enquanto, em pânico, sentia as folhas estaladiças da massa folhada amolecer ante a expressão de espanto e horror do homem-queque. O pastel de nata era fraco de nervos e, às vezes, contrariedades sem expressão afectavam-no psicológica e fisicamente de forma inversamente proporcional à sua importância. Era o caso, sentia-o, mas não o conseguia evitar e deixou-se cair pesadamente no banco, tentando não se desfazer.
– Ah! – soltou o pastel de feijão, largando a mão do homem-queque, que se apressou a sentar numa das pontas do banco, deixando o pastel de nata como cordão higiénico.
O pastel de nata sorriu atrapalhado e o homem-queque lembrou-se e sussurrou-lhe:
– Este é que é o mãozinhas de veludo?
O pastel de nata amochou mas, contrariado, acenou com a cabeça que sim, que era.

posted by garfanho # 14:00
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Terça-feira

(o homem-queque, cinco)

– Conheço o gajo que te resolve isso num instante – anunciara o pastel de nata, convicto, em resposta às queixas lombares do homem-queque.
– O gajo?! – O dorido homem bolo não gostara do género sexual da solução apresentada para o seu mau jeito nas costas e não o escondera: tom depreciativo, muitas caretas, olhos arremelgados e o indicador e o dedo médio juntos a entrar e a sair da boca, sem tocar em nada, com o final num esgar de nojo e simulação de golfada de vómito. – O gajo?!
O pastel de nata afinara:
– Queres ficar bom das costas ou queres festinhas?
O homem-queque escolhera as festinhas:
– Definitivamente as festinhas.
Mas o pastel de nata pegou no telemóvel e avançou para a solução:
– Um pastel de feijão! – anunciou animado.
O homem-queque olhou para o telemóvel a deslocar-se até ao ouvido do pastel de nata, ouviu o anúncio com um arrepio e perguntou:
– Um pastel de feijão?
– O! – sorriu o pastel de nata, mostrando-lhe o telemóvel, como se o homem-queque pudesse ver o tal bolo milagroso que lhe ia curar o mau jeito nas costas. – O pastel de feijão! O mãozinhas de veludo!
– Mãozinhas de veludo?! – tremeu o homem-queque.
– Mãozinhas de veludo, meu caro – repetiu o pastel de nata, certificando-se que o telemóvel estava a chamar. – O gajo é difícil de apanhar. É um senhor, pá, um senhor.
– Mãozinhas de veludo?! – o homem-queque ainda tremia.
– Mágico. O tipo é mágico – apregoou o pastel de nata, enquanto tornava a ligar. – Tens sorte que o gajo me deve uns favores…
– Favores?
– Três!
– Três favores? O mãozinhas de veludo deve-te três favores?
– Yep!
– Porquê três?
– Uma bola de Berlim, uma duchaise e uma pirâmide – enumerou o pastel de nata.
O homem-queque reconheceu com uma ligeira vénia a capacidade engajadora do pastel de nata e os seus vastos conhecimentos nos bas-fonds da pastelaria e similares.
– E mãozinhas de veludo porquê? – voltou o homem-queque ao pastel de feijão.
Ainda inchado da enumeração anterior e da consequente vénia, o pastel de nata declamou:
– Esse justo cognome adveio-lhe de duas épocas como massagista de uma equipa daqueles bonecos plásticos um bocado raquíticos que decoram os bolos de aniversário em forma de relvado sintético…
– Massagista… – troçou o homem-queque, prenhe de preconceitos e injustas ideias feitas. – Duas épocas?! Quer dizer que já não é?
– Não – disse lacónico o pastel de nata, abanando a cabeça às injustiças do mundo do desporto de pasteleria.
– Então, o mãozinhas de veludo não prestava, era? – picou o homem-queque.
– O mãozinhas foi vítima do seu próprio sucesso, da magnificência da sua própria arte – o pastel de nata discursava com frémito religioso – e foi impiedosa e cruelmente forçado a abandonar as suas práticas quase milagrosas por ordens expressas da vil direcção da agremiação desportiva do expositor quatro, que não soube ou não quis lidar com uma passageira, mas grave, isso é verdade, crise de resultados desportivos, que, injusta e prepotentemente, justificavam com as estranhas lesões contraídas pelos atrofiados e mirrados jogadores, que os levavam a passar mais tempo deitados no sucedâneo de relva aos cuidados do mãozinhas de veludo do que em pé a lutar como uns frangos de aviário pelo horrível jersey que a instituição os obrigava a usar. – O pastel de nata fez uma pausa para apreciar a atenção quase deslumbrada do homem-queque e terminou: – Meu caro, o mãozinhas de veludo, que te vai deixar mais direito e rijo que um gressino, era o melhor, o melhor dos curiosos das massagens. Agora é que se desleixou um bocadinho – referiu em contra-ciclo, antes de começar a falar ao telemóvel com o pastel de feijão e cobrar-lhe um dos favores devidos, no caso, a bola de Berlim.

posted by garfanho # 14:04
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Sexta-feira


a verdade é que quero postar e não consigo (afinal parece que consigo, tenho é de dizer que não consigo para o conseguir, pois, assim que escrevi que não consigo já estou a fazê-lo). É triste, digo eu, quando se tem de negar à partida uma ciência que se conhece, ou melhor, que se desconhece, parece. É triste, reformulo, quando se tem de escrever que não se consegue escrever para se poder escrever. Não é bom sinal, nada bom sinal…

Digam-me depressa o nome de um complexo, daqueles complexos muito complexos que juntam não sei quantas vitaminas, sais minerais, guardas prisionais para radicais livres, e mais não sei quantos químicos todos absolutamente naturais, filhos das melhores pipetas e enteados dos mais nobres tubos de ensaio. Diga-me nomes, receitas, mezinhas, ervas que se enrolem e se fumem, bebidas energéticas ou, pelo menos, sorriam-me que eu acho que preciso urgentemente de qualquer coisa. Na verdade, digo eu, quer-me parecer que, seja como for, já vêm tarde. Não preciso urgentemente… precisei e agora será apenas uma espécie de penso rápido num pescoço degolado…

"Sem "saída"", como li algures, sinto que preciso de um amplexo de um tal complexo... mas, nem sei, sequer, se ainda tenho neurónios suficientes que possam ser ajudados. Parece-me que tenho três: dois que estão a escrever e um que está a ler. E se o que está ler é que é o saudável, os outros dois já não têm safa possível. Impossível. Pelo que escrevem, estão condenados. Já estão mortos e enterrados só que não sabem, não têm quem lhes diga. Agora, meus amigos, nem com complexos, nem com amplexos de complexos, nem sequer, com complexos amplexos de complexos complexos. Bau-bau! Já eram. Kaput. Paz à vossa alma (se é que a tinham)…

A minha esperança é o neurónio leitor, esse que com um sorrisinho de quem diz eu bem te avisei que isto não ia acabar bem, aquele mesmo olhar que o Afonso Henriques grama de há oitocentos anos a esta parte da sua santa mãezinha…

A minha esperança, recomeço, que ali já me perdi, reside unicamente (desesperada esperança…) no neurónio que lê e ainda tem, espero, algum sentido critico, tanto que não me permita postar isto, que um dia mais tarde poderá ser usado contra mim, arruinar a minha carreira politica e justificar o meu internamento compulsivo em instituição de saúde mental. Mas, quer-me parecer, pela rapidez com que estou a escrever, qual dr. mabuse a escrever o seu testamento, o terceiro neurónio já era e os outros dois - estes dois, nós dois!, gritam eles, como se eu não fosse mais que o conjunto composto por um miserável par de neurónios fundidos - escrevem como se não houvesse amanhã... mas há, e amanhã é sábado e pelo que tenho produzido hoje, amanhã vai ser dia de trabalho…

e agora, porque fui interrompido e um dos neurónios se dispersou, já não consigo escrever mais nada, por isso vou aguardar serenamente um nome, um complexo, um comentário ("que comentário?! como comentar isto?! o que é isto?!") enquanto mantenho um ar atarefado e um sorriso enigmático como se estivesse a pensar nalguma coisa.

ah!

e agora fico de ar apalermado (não consegui manter o ar atarefado, nem o sorriso enigmático que, na verdade, já era um bocado apalermado), mão no rato, a carregar, de cinco em cinco massachusetts, no botão virtual que actualiza o blog e a caixa de comentários

posted by garfanho # 18:07
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Sábado


O homem-queque sentiu a protuberância calórica dar sinal e olhou em volta envergonhado. A falta de roupa no mundo da pastelaria animada provocava-lhe embaraços e engulhos mas, também, há que dizê-lo com frontalidade, ainda que sem um castor debaixo do braço, proporcionava uma determinada clareza nas situações e relações que a roupa, os telemóveis, o messenger ou, mesmo, a educação judaico-cristã das personagens pouco animadas que somos nós, tende a esconder.
– O que é isso? – perguntara-lhe a madalena, sorrindo afavelmente.
O homem-queque enrubescera, baixara os olhos, dando conta do excesso de fermento entre as virilhas e respondera atrapalhado:
– Pode-se dizer que é um elogio – levantou os olhos e viu um brilhante sorriso espalhar-se na cara da apetitosa madalena. Engoliu em seco e rematou num murmúrio: – Um elogio velado…
– Velado?! – sublinhou a bem torneada madalena, sem tirar os olhos da açucarada protuberância que apontara para si mas que agora desafiava a lei da gravidade apontando o céu. – Não diria que esse fosse um elogio velado, homem-queque, gelado talvez, velado não.
O homem-queque não percebeu:
– Não percebi.
– Não é nada velado, pelo contrário… – a madalena riu e fixou-se nos olhos estarrecidos do homem-queque [outro totó para a vasta galeria de totós deste blog], passou a ponta da língua entre os lábios entreabertos e concluiu maviosa: – Tem mais ar de elogio gelado.
– Gelado?!
– Numa perspectiva calippiana da coisa – explicou a madalena, sorrindo lubricamente como uma gata no cio se as gatas no cio sorrissem.
– Perspectiva calippiana? – interrogou o homem-queque, surpreendido com a explicação.
A madalena amarfanhou o sorriso lúbrico num suspiro entediado e, aproveitando o facto bem conhecido, estudado e cientificamente comprovado dos homens-queques serem profundamente hipocondríacos, lembrou-se, para o avaliar com atenção e comprovar a sua primeira boa impressão, de disparar:
– E essas manchas?
– Manchas?! – Assustou-se o homem-queque, conferindo imediatamente a coloração da sacrossanta protuberância e, depois, do resto do corpo. – O meu Deus…
– És um queque de quê? – adiantou-se a madalena, evitando que a conversa descambasse para um elenco de padecimentos que o homem-queque certamente iria propor para o seu totalmente fantasioso estado de saúde, ou melhor, de doença, que saúde é coisa que os homem-queques hipocondríacos não imaginam sequer o que seja.
– Calippiana? – insistiu o homem-queque, satisfeito por não ver qualquer alteração à sua coloração original, evitando o delicado tema da sua extravagante composição.
– Nunca ouviste falar duns gelados fálicos chamados calippos? – suspirou a madalena, receando que o momento se perdesse.
– Fálicos?!
A madalena não se dignou responder e tornou a perguntar:
– E, afinal, és um queque de quê?
– Ah! Calippiano!... – percebeu o homem-queque com uma gargalhada envergonhada.
– Pois… – admitiu com um sorriso amarelado a madalena.

O homem-queque leu o desalento no tom do “pois…” e no trejeito dos consistentes lábios da madalena e lembrou-se do conselho do boneco de gengibre: “Aproveita, homem-queque, que nós, os bolos de pastelaria, deterioramo-nos depressa. Temos de viver como se não houvesse amanhã! E acredita que, quando menos esperares e estiveres a gostar disto, acabou-se. Já éramos.” No que foi apoiado por um debochado croissant de chocolate que, satisfeito, lambia os beiços do creme de duas bolas de Berlim que acabara de comer. “Aproveita, homem-queque” disseram em coro as saciadas bolas de Berlim, gémeas, altas e espadaúdas, com sotaque baiano, “Aproveita que amanhã não há!”
A madalena permanecia calada, expectante, enquanto o homem-queque ganhava alento na lembrança dos conselhos e prática dos hedonistas bolos de pastelaria. “Ao prazer e ao deboche” brindara o boneco de gengibre juntando-se ao devasso trio numa amálgama de açúcares, farinhas, creme de pasteleiro, chocolate e outros ingredientes que não interessa agora inventariar, pois, isto não é nenhum livro de cozinha.
“Ao prazer e ao deboche” murmurou o homem-queque fascinado pelas formas voluptuosas e pelos auspiciosos lábios da madalena e repetiu entre dentes o lema do boneco de gengibre que, apesar de não saber o que era um poço da morte, repetia incessantemente: “Audácia! Arrojo! Desprezo pela vida!”, e lançou-se de cabeça, consciente do que queria. De que a queria.
– Tens razão, madalena, não era um elogio velado, era um enorme elogio silencioso sob a forma de um calippo.
– Enorme?! – A madalena deu uma gargalhada fria como uma faca de cozinha romba que cortasse o homem-queque dolorosamente às fatias, impregnando-o de uma camada dispersa de partículas de ferrugem e sabor a legumes podres e cascas de fruta. – Desculpa – pediu docemente –, estava a brincar.
– O pasteleiro era um unhas-de-fome – respondeu o homem-queque, sorrindo e piscando o olho. – Esse artista fartou-se de cortar no fermento…
– Ninguém diria… – sorriu a madalena, animada: talvez houvesse esperança para o homem-queque. – E afinal… – aproximou-se dele e agarrou-lhe na mão – és de quê?
O homem-queque sorriu:
– Adivinha…
Ela levou suavemente a mão dele à boca e lambeu-lhe as pontas do indicador e do dedo médio. O homem-queque sentiu um arrepio frio. A madalena sem deixar de o fixar com os seus olhos brilhantes e sorridentes, envolveu-lhe os dedos entre os lábios e chupou-os languidamente, tomando-lhe o sabor. O homem-queque sorria beatificamente, ainda não estava no céu dos bolos, mas já tinha iniciado a ascensão.
A madalena tornou a lamber os dedos do homem-queque e abrindo o sorriso, disse:
– Tens um sabor estranho.
O homem-queque beijou-a.
– Estranho? – sussurrou.
Tornaram a beijar-se.
– Hummm… – a madalena fixou-o, sorriu e, enquanto se ajoelhava, murmurou: – É estranho, mas bom, homem-queque – beijou-lhe o peito, brincou com os mamilos de goma, passou a ponta da língua pelo arremedo de umbigo e, já de joelhos, avisou: – Vamos ver se descubro o que é… – beijou-o demoradamente a todo o comprimento. – Agora é que vamos ver de que massa és feito, homem-queque.

posted by garfanho # 18:57
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Terça-feira


O homem queque cumprimentou o mil-folhas e sentou-se ao seu lado ao balcão. Levantou um dedo para fazer o pedido mas permaneceu em silêncio, evitando os olhares interrogativos do mil-folhas fixando-se no empregado que lhe enchia uma imperial. O mil-folhas percebeu o desalento do homem queque pela forma comprometida como este o evitava e pelo modo triste com que cravara os cotovelos no balcão segurando o rosto.
– No outro dia – começou o mil-folhas, tentando animar o amigo –, ouvi uma boa na bola.
O homem queque recebeu a imperial e, sem falar, fez sinal ao mil-folhas que queria ouvir a história. O mil-folhas continuou:
– Um pastel de nata estava a chamar nomes ao árbitro, aos gritos: filho da puta! Filho da puta! – O mil-folhas pousou o copo vazio da imperial e gesticulou acompanhando os impropérios que abafava, presumivelmente, imitando o pastel de nata. – Dedica-te mas é ao piano, filho da puta!
– Ao piano? – perguntou o homem queque, ainda de lábios descaídos e olhar baço.
– O árbitro era pianista e alemão – explicou o mil-folhas.
– Ah…
– E o gajo continuava aos gritos: filho da puta! Filho da puta! Vai roubar para o teu país, filho da puta! – o mil-folhas baixou o tom e suspendeu os gestos para narrar: – Então, houve um gajo ao lado, um pastel de feijão ou lá o que era, que lhe perguntou: “O gajo é de onde?”; o pastel de nata ficou a olhar para ele aparvalhado e respondeu: “De onde o quê?”; “De que país? De que país é o árbitro?” esclareceu o pastel de feijão. – O mil-folhas rodou o banco e olhou directamente para o homem queque: – E sabes o que o tipo disse?
O homem queque acenou que não, não sabia.
– O pastel de nata virou-se para pastel de feijão e disse muito sério: “O filho da puta? Aquele filho da puta? Aquilo não tem país, pá! Filho da puta é filho da puta e pronto, não tem nacionalidade: é filho da puta!”
– E o pastel de feijão?
O mil-folhas olhou-o espantado, esperava um comentário, uma gargalhada ou, pelo menos, um sorriso e não uma pergunta.
– O pastel de feijão?! – O homem queque confirmou com um aceno. – O pastel de feijão calou-se, pá, calou-se. O que é que querias que ele dissesse mais?! O pastel de nata foi peremptório, não admitia resposta: Filho da puta é filho da puta e pronto!
– Ah… estou a ver – disse o homem queque, sem entusiasmo. – E a história gira que ouviste na bola?
– Ahn?!... Foi… – o mil-folhas engasgou-se, tossiu, olhou para o homem queque, que ainda tinha os lábios descaídos mas o olhar menos baço, e respondeu encolhendo os ombros: – Vai-te lixar!

posted by garfanho # 14:37
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Quinta-feira


– Não, não o cuspas – pediu a custo o homem-queque, num fio de voz vindo do diafragma. – Por favor...
Sem o tirar da boca, a madalena revirou os olhos para cima e expressou a sua dúvida e inquietação com um curioso movimento das sobrancelhas.
– Não o molhes – adiantou o homem-queque entre suspiros provocados pela irrequieta língua da mulher bolo.
A madalena recuou a cabeça até ficar com a boca vazia e perguntou, desconsolada:
– A seco, homem-queque?... Queres que o faça a seco?
Abatido com a resposta que ia dar, o homem-queque fixou-se na sua protuberância calórica que apontava o céu e suspirou:
– A seco, madalena, tem de ser a seco se não queres ficar com a boca cheia de migalhas…
– Oh… meu querido – ronronou a madalena, agarrando suavemente a protuberância calórica do homem-queque com as pontas dos dedos e apontando-a à boca. Fez círculos com a ponta da língua na extremidade da rija protuberância do homem-queque e ronronou docemente: – A tua massa está deliciosa, homem-queque. – Abocanhou a protuberância até à base e balbuciou com a boca cheia: – Deliciosa.

posted by garfanho # 14:15
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Quarta-feira


O homem-queque

– Pum!
O homem-queque bateu com a esponjosa mão no tampo da secretária do administrador do estúdio soltando migalhas e, sincronizadamente, deu um grito rouco imitando o som de uma mão verdadeira a esmurrar a mesa. A composição da receita que fizera do homem-queque um ser silencioso, levara-o a desenvolver competências ao nível da sonoplastia vocal, tendo-se tornado, nas duas semanas que levava fora do forno, num perito em imitar os sons que o seu corpo não conseguia fazer e em sincronizá-los de forma teatral com os seus gestos. O homem-queque gostava de si e do seu corpo, mas não se conseguia conformar com a sua silente maciez e adocicada fragilidade, que o obrigavam a ser a sua própria banda sonora e a evitar fellatios prolongados, que lhe podiam dissolver o órgão de soberania e torná-lo um homem-queque assexuado ou, pior, um queque indiferenciado.
– Pum – repetiu orgulhoso o homem-queque, para reforçar a sua irritação com o administrador do estúdio que o mantinha a contrato mas o excluía de qualquer desenho animado.
O administrador riu-se e desviou ostensiva e provocadoramente os olhos para uma fotografia do boneco de gengibre abraçado ao gato das botas.
O homem queque seguiu-lhe o olhar e rosnou (gostava de imitar animais, principalmente durante o acto sexual, ainda que o seu maior pavor fosse o de vir a conhecer (ainda que, provavelmente, só o viesse a saber tarde de mais e apenas durante breves instantes) uma mulher bolo com os mesmos gostos e que imitasse os rituais de acasalamento de uma louva-a-deus).
– Uma louva-a-deus não é um animal – censurou o administrador.
O homem queque fulminou-o com o olhar mas não lhe respondeu.
“Isso não interessa nada” pensou o homem queque, engolindo em seco, “se ela me engolir a cabeça, quero lá saber se é um insecto ou um animal.”
“Visto por esse prisma” anuiu o administrador, imaginando o homem-queque sem cabeça.
– Oiça lá – barafustou o homem queque, olhando na minha direcção mas falando com o administrador do estúdio –, é mesmo preciso este narrador?
O administrador encolheu os ombros, fazendo desaparecer as orelhas. Aparvalhado, o homem queque bolsou um nasalado “oh”.
– Não – afirmou o administrador dirigindo-se ao homem-queque, despedindo-me verbalmente, mas fazendo sub-reptício sinal para me manter na sala. O homem-queque sorriu e o administrador perguntou: – Fellatios prolongados, homem-queque?
– Molhados, principalmente – disse o homem-queque, coçando a virilha num acto reflexo. – Para mim são um perigo, desfazem-me.

posted by garfanho # 13:23
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Quinta-feira

PUM!

– Matou-o?
– Matei.
– Matou-o mesmo?
– Matei.
– E agora?
– Agora o quê?
– Matou-o…
– Pois.
– E agora?
– Agora? Agora está morto.
– Sim, isso estou eu a ver, mas o que é que fazemos?
– Nada, já está morto, o que é quer que façamos?
– Façamos?!
– Sim, o que é quer fazer?
– Façamos?! Fazer?! O que é que EU quero fazer?!
– Sim. O que é que fazemos?
– Não fui eu que o matei!
– Ninguém disse que foi.
– Pois não, nem podia. Você é que o matou!
– Eu?
– Diga?
– Eu?
– Eu, o quê?
– Fui eu que o matei?
– A mim?
– Diga?
– Espere aí, acho que estamos a ficar baralhados…
– Baralhados? Não. Eu não.
– O que é que você perguntou?
– Quando?
– Ainda agora.
– Mesmo agora?
– Sim.
– Quando?
– Quando o quê?
– A última pergunta que fiz foi “Quando?”.
– Não é isso.
– Não? Então é o quê?
– Não perguntou se foi você que o matou?
– Perguntei.
– Porquê?
– Porque é que perguntei?
– Sim.
– Já não me lembro…
– Já não se lembra?! Já não se lembra?! Já não se lembra que o matou?
– Disso lembro, já não me lembro é porque perguntei.
– Ah! Mas lembra-se que o matou?
– Claro que sim, foi agora mesmo.
– Ao menos isso…
– O quê?
– Que se lembre que o matou.
– Eu nunca disse que me esqueci.
– Pois não… E agora?
– Agora?
– Sim.
– Agora, o quê?
– O que pensa fazer?
– Esfolamo-lo?
– Esfolá-lo?
– Sim, e assamo-lo.
– Assamo-lo?
– Sim, assamos e comemo-lo.
– Comemo-lo?
– Sim.
– Está a brincar?!
– Não, de maneira nenhuma.
– Esfolamo-lo?!
– Sim e assamos.
– Para o comer?
– Para que haveria de ser?
– Esfolamos, assamos e comemos…
– Sim, qual é dúvida?
– Comemos o gato?
– Qual gato?
– O gato que você matou!
– Um gato?
– Sim, um gato.
– Matei um gato?
– Foi.
– Um gato, tem a certeza?
– Absoluta.
– Não era um coelho?
– Era um gato.
– Bolas! Pensava que era um coelho!
– Um coelho?! O bicho não tinha orelhas!
– Então, como é que sabe que é um gato?
– Não tinha orelhas de coelho! Tinha orelhas de gato!
– Tinha?
– Ainda deve ter.
– O coelho tinha orelhas de gato?
– Qual coelho?
– O que eu matei.
– Você matou um gato!
– Foi?
– Foi.
– Conhecia-o?
– A quem?
– Ora, ao gato.
– Não.
– Então como é que sabe que não era um coelho?
– Oiça lá, um gato é um gato e um coelho é um coelho! Não há confusão possível!
– Não, tem a certeza?
– Enquanto não forem esfolados, tenho a certeza!
– Não seja por isso: esfolamo-lo!
– Ao gato?
– Matou mais alguma coisa?
– Não.
– Eu também não.
– Esfolamos o gato?
– Sim, esfolamos.
– E depois?
– Depois, depois deixamos de ter a certeza.
– De quê?
– Se é um gato ou um coelho.
– E arranjamo-lo?
– Sim, com certeza.
– E comemo-lo?
– Sim, mas já não pode é ser assado.
– Não?
– Não, a carne de gato é mais adocicada, precisa de temperos.
– Mas aí nós já não sabemos se é um gato ou um coelho.
– Sim, mas… um gato é um gato, e mesmo que nós não soubéssemos que o coelho era um gato, ele não deixava de ser um gato.
– Mas se é assim, escusamos de fingir que é um coelho.
– E quem é que está a fingir?
– Ah! Você é que disse que era um coelho!
– Mas eu não estava a fingir, eu pensava que era um coelho!
– Mesmo?
– Sim, mesmo!
– E agora?
– Agora o quê?
– Já não acha?
– Você é que disse que era um gato!
– Mas você é que o matou.
– Fui?
– Eu é que não fui!
– Nem eu, calha bem!
– Não?!
– Eu não matei um gato, eu matei um coelho!
– Era um gato!
– Um coelho!
– Era um gato, estou a dizer-lhe!
– Pode dizer o que quiser, eu matei um coelho!
– Ah! Vamos mas é buscá-lo!
– A quem?
– Ao gato.
– Qual gato?
– Ao coelho, pronto!
– Ah! Ah! Sempre matei um coelho!
– Não matou nada…
– Você é que disse! Não disse “Vamos buscar o coelho?”
– Não!
– Disse!
– Não disse!
– Você disse: “Ah! Vamos mas é buscá-lo!” e eu perguntei “A quem?” e você primeiro respondeu, pouco convicto, “ao gato” e eu, desconfiado, porque matei um coelho, inquiri “Qual gato?” e você respondeu “Ao coelho, pronto!” com ponto de exclamação e tudo! Foi ou não foi?! Foi ou não foi?!
– Foi, mas isso não quer dizer que o gato se tenha transformado num coelho…
– Lá está você a tergiversar…
– A quê?
– A tergiversar, a inventar, a confundir…
– A confundir, eu?!
– Sim, você… Cá para mim estava a ver se me convencia que eu tinha morto um gato e, depois, fugia-me com o coelho.
– Qual coelho?
– O que eu matei.
– Você matou um gato.
– Isso diz você.
– Não digo. Não digo nada. Vamos lá e vimos.
– Onde?
– Ao sitio onde está o… o animal que matou.
– Matei?
– Sim.
– Como sabe que fui eu?
– Eu é que não fui.
– Eu também não. Eu nem vi gato nenhum.
– O gato estava em cima do muro…
– Tem a certeza?
– Eu?! Você é lhe acertou!
– Sim, mas tem a certeza que não era um coelho que estava em cima do muro?
– Um coelho!? Em cima do muro?! Era um gato!
– E agora?
– Agora o quê?
– Onde é que ele está?
– Deve estar do lado de lá do muro.
– Caiu?
– Com certeza, se foi atingido.
– O quê?
– O quê o quê?
– O que é que foi atingido?
– Um gato!...
– Meu Deus.
– Meu Deus, o quê?
– Atingirem um gato…
– Atingirem não, atingir! Atingiu. Você atingiu um gato!
– Ao que isto chegou…

posted by garfanho # 16:33
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Segunda-feira

A Varanda

Farta de o ouvir, encaminhou-se para a porta da rua, abriu-a em silêncio e assim ficou, agarrada à maçaneta, olhando-o fixamente, tentando manter-se sem expressão, ordenando-lhe que saísse.
Ele que não parara de falar, de si, dela, de tudo e de nada, alimentando uma discussão que parecia ser a única coisa que os ligava, calou-se espantado. Olhou-a. Olhou o longo corredor escuro que dava acesso ao elevador e aos restantes apartamentos naquele piso e perguntou:
– O que é isso?
– Uma porta.
– Queres que me vá embora?
Ela ergueu as sobrancelhas:
– O que é que te parece?
– Assim?!
Ela baixou ostensivamente os olhos até aos sapatos dele e subiu lentamente até os olhos de ambos se tornarem a encontrar:
– Se foi assim que vieste, qual é a dúvida?
– Não estava a falar da roupa – disse ele, incomodado com a frieza e rigidez dela junto à porta.
Ela manteve-se calada.
– Queres que me vá embora? – repetiu ele, sem se mexer.
Ela acenou positivamente.
– Porquê? – inquiriu ele, iniciando a lenta caminhada até ela.
– Porque não?
Ele parou e olhou-a interrogativo, mas não recebeu qualquer sinal em resposta.
– É isso que queres? – e recomeçou a andar.
– Sim.
Ele aproximou-se dela e estendeu a cara na sua direcção, apontando a sua boca à boca dela. Ela hesitou, mas acabou por não dar o passo atrás, como o primeiro impulso quase a levara a fazer, e apenas virou a cara, dando a face para ser beijada.
Ele beijou-a e suspirou ruidosamente.
– Eu depois ligo-te – disse, saindo para o corredor.
– Escusas de ligar – informou-o. – Com licença – e fechou a porta suavemente ante a incomodada perplexidade dele.

Deixou-se ficar encostada à porta e ouviu-lhe os passos no corredor a afastarem-se, percebeu duas paragens mas nunca olhou pelo óculo da porta. Ouviu a porta do elevador fechar-se, desencostou-se da porta, deu cinco passos e encarou a sala vazia, mais vazia.
“E agora?” pensou. Sorriu com a pergunta, achou graça a que no fim de uma discussão, provavelmente, sem retorno, a primeira coisa que conscientemente pensasse fosse exactamente “E agora?” como se tivesse queimado o jantar e fosse imperioso arranjar uma solução imediata. Suspirou “Que estupidez”, mas não fechou o sorriso.
Procurou o maço de tabaco e encaminhou-se para a varanda, sentindo-se estranhamente satisfeita, absurdamente limpa e leve. Ouviu o telemóvel tocar mas decidiu não atender, nem sequer ver quem era. Encostou a porta da varanda, sentou-se na cadeira plástica e fumou olhando as janelas do prédio em frente.
“Quantas pessoas estarão agora a fazer amor? Quantas estarão a discutir? Quantas estarão a vegetar em frente ao televisor?”, conjecturou contemplando demoradamente os apartamentos que entrevia através das janelas. “Estou a ficar velha”, acendeu outro cigarro, “ou, se calhar, mais esperta”, olhou para o relógio com satisfação e, ainda que não o pensasse de forma consciente (não precisava), decidiu sair, ir às compras, ver montras, ver pessoas e caminhar.
Apagou o cigarro, ainda a meio, e reentrou em casa. O telemóvel tocava. Respirou fundo e, contrariada, dirigiu-se, de sobrolho franzido, ao braço do sofá, onde o tinha abandonado. Olhou o mostrador, “Provavelmente, isto já não se chama um mostrador”, pensou e leu o nome dele. Atendeu.
– O que foi?! – disparou.
Ele hesitou (as hesitações dele enfureciam-na), começou três frases, que ela não percebeu e, por fim, pediu:
– Desculpa.
– Porquê? – perguntou ela, furiosa. Desculpas era a última coisa que queria ouvir. – Por seres quem és?!
– O quê?
– Está a pedir-me desculpa, porquê? – insistiu com maus modos. – Partiste alguma coisa, foi?
Surpreendido, ele não respondeu.
– Partiste alguma coisa?! – repetiu ela.
– Não – disse ele.
– Fizeste chichi no elevador? – perguntou ela.
Ficaram ambos estupefactos quando ouviram a pergunta mas só ele verbalizou a surpresa:
– O quê?!
Ela, ainda espantada com o que perguntara, imaginou-o de olhos esbugalhados e olhar perdido, boca aberta e sobrancelhas em meia lua quase a tocarem a franja e abafou um risinho de gozo. Gostara da frase, ainda que não compreendesse porque a dissera.
– Estás pedir desculpa, porquê? – retomou a conversa antes do chichi, mas imaginava-o agora a abrir a braguilha, a parar o elevador e a urinar furtivamente com um sorriso demoníaco.
– Porquê? – repetiu ele.
– Sim, estás a pedir desculpa porquê?
Ele sentiu o porquê como um monte de entulho impossível de ultrapassar sem se magoar, sem se sujar, sem se comprometer. Na verdade, ele por mais que se esforçasse, e estava a esforçar-se muito, não sabia porque tinha pedido desculpa, ou melhor, sabia, mas não o podia dizer. Não pedira desculpa por nada, julgara apenas que fosse uma boa forma de iniciar a conversa. Normalmente resultava.
– Porque é que havia de fazer chichi no elevador? – disfarçou.
– Sei lá – ela não conteve uma gargalhada. – Podias ter vontade.
– E achas que ia mijar – ambos estranharam que ele usasse esta palavra – no elevador?
– Podia ser uma afirmação!
– Urinar no elevador…
– No meu elevador.
– Urinar no teu elevador era uma afirmação?
Ela olhou-se ao espelho. Sorria e os olhos brilhavam-lhe. “E agora?” lembrou-se, sem mudar de semblante.
– Urinar, não – declarou. – Mijar, sim. Dava a ideia que te tinhas descontrolado, que tinhas sido realmente afectado pela nossa discussão… que tinhas sido abalado por eu te pôr na rua – corrigiu.
– Estou a ligar-te, não estou?
– E depois? – A imagem do espelho tinha perdido o sorriso e os olhos já não brilhavam. – Estás a ligar-me, pois estás, mas ainda não me disseste nada – o tom endureceu e ela afastou-se do espelho quando se apercebeu da ruga vincada que lhe dividia a testa. Tornou a olhar para os prédios em frente. “Quantas pessoas estarão a fazer amor neste momento?” – Há quanto tempo não fazemos amor? – perguntou de chofre.
– Há…
– Não digas – interrompeu ela, arrependida de ter feito a pergunta –, não interessa. Não interessa nada – concluiu em voz sumida.
– Fizemos ontem – disse ele em tom informativo, neutro. “No mesmo tom com que fizemos amor”, foi abalado por este pensamento e calou-se, evitando o risco de descobrir mais qualquer coisa se continuasse a falar.
Ela voltara a pegar no maço de tabaco e regressara, ainda com o telemóvel junto ao ouvido, à varanda. Inconscientemente procurou descobrir o automóvel dele e viu-o, encostado ao carro, de cabeça baixa, olhando para o telemóvel.
– Está – disse para perceber se ele ainda a estava a ouvir.
– Sim, estou – ouviu-o dizer entre os barulhos da rua. Tinha o telemóvel no altifalante.
– O que foi? – ouviu-se perguntar em tom genuinamente curioso.
– Posso subir?
– Subir?
– Sim, posso ir aí?
Ela viu-o levantar os olhos para a varanda e levar o telemóvel até ao ouvido. Hesitou. Olhou as janelas do prédio em frente e apagou o cigarro, onde dera apenas duas passas, informando-o, lacónica:
– A porta está aberta.
Desligou o telemóvel, viu-o descolar-se do carro e foi abrir o trinco da porta do prédio e a porta de casa, que deixou encostada. Olhou para o sofá, mas decidiu retornar à varanda, onde se sentou de costas para a sala observando as janelas do prédio em frente.

posted by garfanho # 13:24
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Terça-feira


Post antes de férias,

que também se podia intitular post para cumprimento de obrigações contratuais, ou melhor, post para cumprimento de obrigações resultantes da minha esmerada educação e pelo respeito que me merecem…
– Bardamerda! – resmungou o Pereira, que abandonou este blog prematuramente dois anos depois do que devia. – Um tipo arranja uma vida, poupa os colegas à vergonha de serem enxovalhados várias vezes por semana, ainda que eles o façam por si diariamente sem precisarem da ajuda de ninguém, e deixa o blog que tão esforçadamente criou, oferecendo-o a um garfanho qualquer e tem de ler esta…
Corto-lhe o tempo de antena. Isto não é serviço público e se ele não aproveitou os quinze segundos que, graciosamente, lhe conferi, a culpa não é minha.
– Vai-te lixar, pá – interrompe o Borrego, esse grande menino que nunca quis tomar as rédeas e se escondia atrás do colega com nome de árvore de fruto. – Nunca quê?!
– Eu bem vos disse – intromete-se o Oliveira, que lia Sterne e pedia para se chamado Phutatorius, o copulador, numa desesperada, mas infrutífera, tentativa de que o nome o levasse ao acto. – Eu bem vos disse – repetiu, acenando com a cabeça –, este gajo não é de confiança…
Deixo-os, os infelizes repartidos de uma repartição imaginária e descontinuada, e viro-me para outras personagens à procura de…
– Escusa de falar comigo – interrompe Chico, o ex-cunhado, essa besta, rosnando. – Eu merecia mais, meu caro – sussurra para o que os outros não oiçam a desavergonhada lambe-botice. – Isto tinha sido um blog à séria se me deixassem escrever ou, pelo menos – o ex-cunhado, essa besta, confere que ninguém o está a ouvir e declara como se fosse verdade: – Isto tinha sido qualquer coisa de jeito se eu tivesse sido promovido a personagem principal, meu caro.
– Acha? – pergunto, franzindo o cenho.
– Sempre esperei que me levasse à Casa da D. Micas.
– Para quê?
– Ora – o ex-cunhado, essa besta, sorri da desfaçatez da minha pergunta –, não é evidente, meu caro?
– Não – replico.
O ex-cunhado, essa besta, fecha o sorriso, bate com a mão na anca e abana a cabeça desvalorizando-me.
– Se eu lá estivesse aquilo era muito mais animado, pá – opina. – Comigo, V. Exa. não se tinha enredado numa teia de personagens secundárias e conversas sem interesse.
– Não?
– Claro que não – responde entediado com a minha pouca fé. Faz um trejeito com a língua de que mostra a ponta e passa e repassa entre os lábios entreabertos, julgo que o trejeito seria pretensamente de cariz sexual, estica os lábios e faz um ruído como se sorvesse qualquer coisa, penso que igualmente para demonstração do seu carácter libidinoso, e por fim, de sorriso aberto como se tivesse acabado de dar duas, pisca-me o olho, estica e retrai o braço direito várias vezes com o punho fechado, arfando ruidosamente, e declara: – Era sempre a bombar. Sempre a bombar.
– Era?! – Só consigo dizer ainda estupefacto pela perfeita sincronização do movimento do braço e do punho com a respiração ofegante.
– Aquilo era uma casa de putas? – pergunta.
– É – informo, ainda à espera que o braço recomece a arfar.
– Mas não parece, foda-se, parece uma casa de meninos, um escritório qualquer, uma triste e bisonha repartição… – Querendo ser ouvido a dar-me nas orelhas, levantara a voz e olhava agora quer para os repartidos à esquerda, quer para os encalhados da casa da putas à direita. – Náufragos – corrigiu.
– Náufragos?!
– Náufragos, pá, náufragos – o ex-cunhado, essa besta, já não fala: discursa. – E não só eles… – sente a atenção das personagens do folhetim e grita apontando na direcção daqueles: – Vocês, sim vocês. Vocês são umas pobres vitimas da inépcia narrativa e da completa incapacidade deste individuo – olha-me, puxa uma escarreta e cospe-me para os pés – de acabar uma história…
O arremesso bocal da esverdeada secreção foi a gota de água, Chico, o ex-cunhado, essa besta não foi, nem nunca irá à casa da D. Micas.
– Ele está a falar de quê? – pergunta Sérgio, o padeiro surdo-mudo, sem desviar o olhar do generoso decote em tons pastel de Jaciara, a ucraniana empregada de limpeza da repartição.
– Bielorussa! – corrige a volumosa empregada em tons pastel. – Deixa de olhar para as minhas seios, seu pervertido! – exclama ofegante num sensual movimento mamário em tons pastel a bielorussa que devia mudar de história.
O doutor Farinha, ainda sob o efeito do Cialis, que lhe dá vinte e quatro horas de pau feito, aborrecido em tons pastel com a falta de acção no folhetim onde o colocaram inadvertidamente, levanta o braço e questiona suplicante:
– Se ela não mudar, posso mudar eu?... Posso? Posso?
Mas, subitamente, os pacíficos tons pastel que cobriam a nudez de Jaciara desenvolveram uma corolação violeta, numa espécie de efeito especial barato que se consegue com a mudança da iluminação e, sem que se percebesse a razão, que não a resultante da vontade do narrador de escrever tamanha imbecilidade, o fim de tarde soalheiro transformou-se num mar de dentes a rilhar, narinas a sangrar, tormentos sem fim, tribulações contínuas, narizes contra joelhos, olhos contra punhos, bochechas de encontro a palmas da mão, cães a ladrar, ambulâncias a apitar, “os corpos no lago eram de gente no desemprego”, a chuva era de gafanhotos e as águas tépidas translucidas dos bucólicos regatos tingiram-se de vermelho sangue... mas isso é outra história e agora não interessa nada.

posted by garfanho # 20:00
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Segunda-feira

Tempo seco com aguaceiros persistentes

De ombros descaídos, cabelo escorrido e despenteado, com o nó da gravata a um polegar do colarinho e passo cansado e lento, o lingrinhas chegou-se ao cubículo onde se dirigira silenciosamente e perguntou num suspiro desanimado:
– Sabes, a sensual Susana?
O gordo ocupante do cubículo deu um surpreendido e ridículo saltinho de menina, o que logo o indispôs contra o colega, descolou os olhos do monitor do computador e fixou-se no lingrinhas que se aproximara sorrateiramente e falara sem avisar, assustando-o.
“Podia ter-me morto, se quisesse, que eu nem dava por nada”, pensou o gordo que tinha a mania da perseguição, enquanto o outro esperava por uma resposta à sua pergunta. “Havia de mudar a disposição do gabinete,” ponderou sério, olhando em volta, “assim, fico muito exposto...”
– Estás a ouvir? – bufou o lingrinhas, frequentador de chats e abusador do Messenger, aborrecido com o desinteresse do gordo, que olhava em volta com ar de engenheiro. – O que é que se passa? – insistiu.
– É o meu gabinete... – começou o gordo, com ar solene e superior.
– O teu gabinete?! – admirou-se o lingrinhas, olhando para o abafado espaço que o gordo ocupava entre três divisórias mal amanhadas. – Qual gabinete?
O gordo semicerrou os olhos, alinhou os lábios e as sobrancelhas e rosnou:
– Isto é o meu gabinete, meu caro. Há algum problema?
O lingrinhas que se correspondia on-line com a sensual Susana e, já agora, com a insaciável Úrsula, viu os lábios do gordo tornarem-se uma fina e malvada linha cómica mas não reparou no assustador movimento das sobrancelhas, pelo que se desencostou lenta e despreocupadamente da divisória interrompida que permitia o acesso ao gabinete e soltou uma fina gargalhada de gozo.
– Nenhum problema, pá – declarou rindo. – Por mim, se quiseres chamar ao teu cubículo uma sala de conferências individual, estás à vontade.
O gordo pousou as mãos pequenas e papudas nos braços da cadeira, ergueu-se ligeiramente e soltou um sonoro peido:
– Vai cagar.
O esticadinho que teclava com a sensual Susana, com a insaciável Úrsula, com a arrebatada Tigresa e com a despachada Madame X, franziu o nariz e esperou em silêncio que o aroma o atingisse, ainda que, por questões de prevenção olfactiva, desse um passo atrás.
– Sabias que a Maria e a Carla já se tinham ido embora? – perguntou, pronto a admirar o gordo pelo seu desprezo às convenções sociais.
O gordo fez cara de quem não se ralava nada com isso, mas sabia que estavam sozinhos naquele canto da sala e bolçou um antipático:
– Já? Não sabia – mentiu.
O outro acenou que sim, em extâse. O gordo era o seu ídolo.
– Não sabias? – deixou escapar o crédulo magricela. O gordo enganava-o sempre. Satisfeito com a coragem do outro, o lingrinhas inspirou pelo nariz cuidadosamente e, seguro da inexistência de qualquer fragrância intestinal, retomou o seu posto encostado à divisória do gabinete do gordo.
“Também podia dizer que sofro de alergia aos ácaros e pedir para tirarem a alcatifa”, reflectia o gordo, preocupado com a sua segurança. “Sempre os ouvia chegar”.
– Vens sempre de sapatos? – perguntou o gordo inopinadamente.
Surpreendido, o não tão gordo interveniente olhou para os pés, para confirmar que estava calçado.
– Querias que viesse de quê?
– Nem à sexta? – quis confirmar o gordo de forma a esgotar todas as possibilidades. À sexta-feira não vinham de gravata, por isso era possível que o presumível assassino pudesse aparecer sem sapatos ruidosamente seguros.
– Venho sempre de sapatos – disse o outro, sem perceber nada.
O gordo tossiu: quanto mais cedo começasse a apresentar sintomas de alergia melhor. Sacou de uma gaveta um lenço que parecia um bocado de desperdício e, sob o olhar hipnotizado do colega, assoou-se ruidosa e furiosamente, não conseguindo evitar, em consequência da exagerada força evacuatória nasal, largar um aromático conjunto de bufas.
Aquele que vinha falar na sensual Susana assistia com gosto ao absurdo espectáculo que o gordo montara com uma espécie de lenço e um nariz, mas não esperava ser envolvido, como foi, pela invisível, silenciosa e traiçoeira arma intestinal do gordo, que, sorrindo como um menino bom, enrodilhava o monte de desperdício a que chamava lenço e o devolvia ao fundo da gaveta onde, certamente, viviam e prosperavam várias colónias de fungos, bactérias e outras formas de vida.
– Foda-se – queixou-se sem educação a vítima do atentado olfactivo, o que, sejamos justos, é compreensível em face do repugnante ar poluído que o envolvia sem hipóteses de fuga ou remissão.
– O que tem a sensual Susana? – indagou o gordo com voz doce e interessada, como se entre a primeira frase do colega e a sua pergunta não tivesse passado mais do que um instante. “O tempo é relativo”, justificou.
Ainda atordoado pelo inesperado ataque ao seu nariz, o outro pareceu concordar com o gordo e respondeu como se nada se tivesse passado entre a sua aparição no cubículo e o interesse do gordo na sensual Susana.
– Acho que a gaja é incontinente... – segredou.
O gordo ainda que habituado a tudo esperar do lingrinhas foi surpreendido e não se conteve:
– Incontinente?! – A sua fé do género humano acabava de bater no fundo e por muito pouco não se levantou e não saiu a correr. – Incontinente, a sensual Susana?! Não pode ser...
– Incontinente, pá... – o lingrinhas crescia com o impacto da sua bombástica e liquida notícia na fisionomia do gordo. – Incontinente – repetiu de boca cheia.
O gordo fincou os dedos nos braços da cadeira, olhou bem para a cara de parvo do colega e, num instante de lucidez, perguntou:
– Mas como é que tu sabes isso?
O esqueleto andante sorriu, como se soubesse tudo e até a resposta àquela pergunta em particular. Tornou a desencostar-se, agora porque achava que ficava melhor desapoiado quando transmitisse o resto da informação, pôs as mãos nos bolsos, formalmente descontraído, e colocando a voz, avançou:
– A gaja disse-me...
– Quando?
– Há bocado no Messenger...
– O quê?! Que é incontinente?
– Não, não disse assim... – o lingrinhas fez uma pausa e recomeçou: – “Vou ficar toda molhada!”...
– Molhado – corrigiu o gordo.
– Não sou eu.
– Não?
– Não, pá, ela é que disse...
– O quê?
– Que “vou ficar toda molhada!”
– Ela disse isso?
– Foi... – O lingrinhas tirou as mãos nos bolsos e esfregou-as uma na outra. – Toda molhada, vê lá...
– Mas estavam falar de quê? – inquiriu a anafada personagem.
– Olha... – o lingrinhas esfregou as mãos ossudas e estalou os dedos – Sexo, do que é que havia de ser?
O gordo semicerrou os olhos como gostava de fazer, achava que lhe dava um ar sapiente.
– E essa gravata? – perguntou o gordo ainda processar a inesperada informação da incontinência da sensual Susana.
O lingrinhas conferiu a gravata.
– O que é que tem?
– Puseste assim pela virilha, de propósito?
O lingrinhas agarrou na gravata e esticou-a para ver onde chegava: batia a meio da braguilha.
– Ou é para limpar o pingo? – atacou o gordo.
– Vai-te lixar! – rosnou o diminuído lingrinhas.
O gordo lembrou-se da alcatifa e recuperou a tosse.
O lingrinhas continuou encostado à divisória à espera sabe-se lá de quê.
– Incontinente – acabou o gordo por repetir –, tens a certeza?
– Estou-te a dizer. Incontinente.
– Meu Deus, ao que isto chegou – o gordo forçava os lábios a descaírem numa careta miguelsousatavaresiana de quem está mal com o mundo porque o mundo não faz o que ele diz. – Qualquer dia ainda me vens dizer que a insaciável Úrsula é um marmanjo qualquer, que a incandescente Laura rói as unhas dos pés, que a arrebatada Tigresa tem pêlos nos sovacos ou que a despachada Madame X sofre de halitose...
– Halitose?
– Sofre da exalação de odores repugnantes e incómodos provenientes da cavidade oral.
– Mau hálito!
– Ou isso – reconheceu o gordo com maus modos. – Mas vocês estavam a falar exactamente de quê?
– Quem?
– Tu e a sensual Susana, foda-se.
– Sexo – o lingrinhas formatou um sorriso marialva que ostentava com orgulho. – Podemos escrever o que quisermos que, na verdade, estamos sempre a falar de sexo...
– Sim, no teu caso é capaz – o gordo acenou depreciativamente com a cabeça. – Mas estavam falar exactamente de quê?
– Sei lá – o lingrinhas aborrecia-se com a insistência do gordo –, ela tinha-me dito que ia dar banho aos filhos...
– Ah! – exclamou o gordo. – Não seria por isso?
– O quê?
– Que ela ia ficar molhada?
– Não – o lingrinhas encolheu os ombros: o gordo não tinha salvação, era definitivamente um não crente, uma alma perdida, um desamparado das novas relações sociais. – As coisas que se escrevem nos chats e no messenger nunca são o que parecem – elucidou – têm sempre duplos sentidos, triplos sentidos e, no fim, estamos sempre a falar de sexo. – E repetiu com enfâse: – As coisas nunca são o que parecem.
– Mesmo que pareçam que estás a falar de sexo – rasteirou o gordo, cínico.
– O quê?
– Mesmo que estejam a falar de sexo – o gordo virara-se para o monitor, dando a entender que queria acabar a conversa –, como tudo tem mais do que um sentido, acabam por não estar a falar de sexo.
O emudecido lingrinhas tentava perceber o que o gordo dissera. O gordo aproveitou e continuou:
– Possivelmente, estão sempre a falar de vocês – o gordo gostou da frase e do raciocínio. – Elas estão a falar delas, da vida delas, dos seus desejos, dos seus gostos, dos seus desgostos, mas acham que precisam de falar de sexo para tu as ouvires, para te interessares...
– Teriam-me em muito má conta – comentou o lingrinhas.
O gordo riu-se:
– Para elas és um básico, incapaz de mais do que duas frases sem qualquer conotação sexual...
– E não estão longe da verdade – o lingrinhas acompanhou-o a rir. – Três frases, no máximo.
– Pois.
– Então, achas que ela ia mesmo dar banho aos filhos?
O gordo confirmou com uma cabeçada na atmosfera.
– Ora, bolas – o lingrinhas suspirou e cruzou os braços, descorçoado. – Qual é o interesse de irmos para ali falar da vida?
O gordo não se dignou a responder-lhe ou, sequer, a olhar para ele, limitou-se a encolher os ombros e a tossir.
O lingrinhas separou-se da pouco mais magra divisória, passou a mão pela franja e afastou-se a resmungar:
– Gordo de merda. – Deu um pontapé num refego da alcatifa, passou o dedo entre o colarinho e o pescoço e entrou no seu próprio cubículo. – Mas se ia dar banho aos putos, o que seria que ela queria dizer com hectolitros e hectolitros de chuva dourada? Que raio de espectáculo é esse que ela me queria mostrar?

posted by garfanho # 19:12
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Sexta-feira

[escrito (nota-se) mas não revisto]
O folhetim 39

Fernando e Henrique viram a D. Micas encostar o indicador direito aos lábios de Big, calando-o, e olharam um para o outro espantados.
– Estás a perceber alguma coisa? – perguntou Henrique.
Fernando desviou os olhos de novo para a razão da sua incredulidade e respondeu:
– Nem estou a tentar, pá, nem estou a tentar.
– E da Patroa tens? – inquiriu o outro.
– O quê?
– Alguma fotografia no telemóvel – explicou Henrique.
Fernando manteve-se calado, vendo Big responder com um aceno a algo que a Patroa lhe perguntara, tomou atenção à movimentação e ao estranho sorriso de Luísa, que se dirigiu para a cozinha, e viu, de olhos arregalados e beiço descaído, Big a seguir a Patroa, entrando para trás do balcão e desaparecendo logo atrás de Luísa.
– Tens? – insistiu Henrique.
– Achas?! – Fernando não tirava os olhos da porta da cozinha, como se tivesse a esperança de conseguir ver através da porta fechada. – Achas que a D. Micas vai com alguém, pá.
– Parece que sim – comentou Henrique, referindo-se a Big.
– Aquilo é a cozinha, parvalhão – respondeu Fernando, azedo. – Mas não estou a perceber nada disto.
– E da outra?
– Qual outra?
– Da que foi com o Cardoso.
– Da Palmira?
– Sim.
– Tenho – respondeu Fernando, desinteressado. – Mas parece que já não está actualizada, a gaja disse que tinha feito um upgrade na xoxota – Fernando falou com sotaque brasileiro –, não ouviste?
– Mostra lá.
– O quê?
– A fotografia que tens dela.
– Para quê?
Henrique calou-se, pensando na razão do seu pedido.
– Para quê? – repetiu.
– Sim – insistiu Fernando, que continuava fixado na porta da cozinha –, queres ver a fotografia da coisa da Palmira, para quê?
Henrique pensou na “coisa da Palmira” e tornou a pensar numa razão para querer vê-la.
– Não faço ideia – confessou. – Não sei, se calhar, pela mesma razão que tu lhes tiras fotografias.
– Tu não sabes qual é a razão porque eu lhes tiro fotografias…
– Grandes planos – acrescentou Henrique, com um sorriso de desaprovação. – E qual é a razão?
Fernando encolheu os ombros.
– Isso é um bocado doentio, não é? – perguntou Henrique, implicativo.
– Vai-te lixar…
– Degradante…
– Degradante?! – Fernando enervou-se. – Tu não querias ver? Tu não te riste quando viste há bocado? Tu não comentaste e disseste graçolas?... Há bocado não te vi com ar de estares a ver nada degradante. Nada que te desagradasse…
– Eu…
– Aliás – Fernando sentia as fontes a latejar, a cabeça a precisar de ser coçada e a respiração a alterar-se. – Aliás, as fotografias são minhas, as mulheres a quem as tirei souberam e concordaram… algumas gostaram, outras acharam que eu era maluquinho, tarado, sei lá… mas todas, todas concordaram e nem paguei mais por isso…
– Mas isso serve para quê?
– Serve-me a mim… Não me serve para nada ou serve, não interessa, é meu. É o meu telemóvel, elas não estão identificadas, elas consentiram… O que é que interessa para que é que serve?! Quem é que estabelece, quem é que define o interesse das coisas, a sua utilidade? Não gostas, não vês. Não concordas, estás no teu direito. Não tens é de me julgar ou de as julgar a elas ou de dizer que isto é degradante ou deixa de ser… Degradante é a tua conversa. Degradante é a censura, a ausência de liberdade, a homogeneização forçada, a imposição de gostos. – Fernando espumava. – E doentio é o encarneiramento, a perseguição, a delação, a estupidez e a falta de senso! – Henrique ouvia-o acabrunhado mas concordante, Fernando concluiu: – Por isso, meu caro, um gajo tirar fotografias ao que lhe apetecer com pessoas adultas e que podem consentir e consentem e guardá-las no telemóvel não é degradante, nem doentio, é uma tara, é uma colecção, é o que for, mas ninguém tem nada a ver com isso…
– Mas posso não gostar.
– Claro que podes – Fernando sentiu a adrenalina baixar. Sorriu. – Claro que podes não gostar e podes dizê-lo e deves dizê-lo.
– E aquele cabrão? – Henrique olhava para a porta da cozinha referindo-se a Big.
Fernando riu, suspirou e tornou a rir:
– Aquele é que nos lixou. – Ajeitou a franja e passou a mão pela cara. – Nunca cá tinha vindo, não queria vir e agora vai para a cozinha, fazer sabe-se lá o quê, com a dona da casa…
– E com a Kitty – acrescentou Henrique.
– É verdade! Ainda mais essa!

posted by garfanho # 19:57
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Quarta-feira

diálogo esquizofrénico

vou parar.
acabar?
fazer uma pausa.
definitiva?
acho que não. uma pausa.
porquê?
não tenho nada para escrever.
isso nunca foi impeditivo. não está a ser.
podia só escrever pausa.
podias não escrever nada.
não gosto de ver isto assim.
como?
parado. suspenso. chateia-me.
e escrever que vais fazer uma pausa, anima-te?
não.
e escrever isto?
também não. só não quero parar sem mais. e escrevi tantos diálogos que gostava de...
acabar?
não, acabar não. pelo menos, acho que não. gostava de anunciar a pausa com um diálogo.
anunciar?
informar.
e depois?
depois? depois logo se vê.
e o folhetim?
o que tem o folhetim?
não acaba?
espero que sim. tenho de ir relê-lo, já não sei o que escrevi.
e postas?
isso interessa?
a ti não?
sim, a mim sim. acho que o devo acabar por mim.
então acaba.
vou tentar.
e postas?
acho que sim.
bolas. não tens a certeza de nada?
boa pergunta.
e?
e?
a resposta. a pergunta é boa, mas qual é a resposta?
não sei.
tu não és assim.
como é que sabes?
eu sou tu.
não, eu é que sou tu.
eu!
eu!
eu é que estou a escrever.
tu?! eu é que estou!
mau. quem é que escreveu isto?
eu.
tu?!
sim, eu.
acho que não, meu amigo. eu é que escrevi.
achas?
sim, acho.
não tens a certeza?
tenho. eu tenho. tu é que não tens certezas. eu tenho.
e postas?
o quê?
isto.
sim, não tenhas dúvidas.
e o folhetim?
isso és tu.
eu?
sim, tu.
olhe que não, olhe que não.
não?
não. queres contar para trás?
o quê?
as linhas deste diálogo.
para quê?
para saber quem está a escrever...
para quê?
isso é verdade. para nada.
sempre tenho razão.
em quê?
é melhor parares.
eu? eu, parar?
sim.
tu é que vais parar.
'tá pior. tu é que tens de parar. tens. tu.
não temos gotas?
pois não.
então, mais vale continuarmos.
se calhar.
e a pausa?
qual pausa?
a que iamos fazer.
onde?
aqui. não disseste que o blog ia parar?
eu?!
eu é que não fui.
ai isso é que foste.
eu?!
queres contar?
conta tu.
eu não, eu sei que não fui.
então, se não é para parar, este post serve para quê?
para a mesma coisa que os outros.
para nada?
ora, estás a ver como sabes. nem mais.
e agora?
agora, o quê?
postamos.
acho que sim, sempre escusa isto...
isto?
o blog. sempre escusa o blog de estar ao abandono.
parece, não é?
parece?
tem mau ar, não tem?
ainda tens dúvidas?
e este post não vai ajudar nada, pois não?
não. mas engana.
engana?
sim, à primeira vista deve parecer que está aqui qualquer coisa escrita.
estou a ver. até parece que é uma coisa à séria.
hum... isso também é capaz de ser demais. o principio não é nada prometedor. assim que lerem as primeiras frases, bau bau, lá se vai o engano.
só lhes apetece é garfiar.
isso é que é uma grande ideia.
garfiar?
sim. desaparecer, fugir, escapulir-nos.
ah. garfiamos?
deviamos ter-nos lembrado disso há dez minutos.
porquê?
escusávamos de escrever isto.
escusavas. eu não estou a escrever nada.
não?
outra vez?
e quem é que escreveu mwpyrd.
não faço ideia. o narrador?
qual narrador, isto não somos só nós a falar?
e a escrever.
sim, e a escrever. não somos?
só tu.
sim, só eu.
não tens vergonha?
de quê?
de estares a escrever isto?
de escrever não, mas de postar...
é uma coisa um bocado doentia, não é?
é capaz, mas não tinha nada para escrever. era isto ou nada.
mais uns dias em branco.
pois.
mais valia.
achas?
tenho a certeza.
não posto?
e perdias este tempo todo para nada?
era só o meu.
isso é verdade. vamos mas é embora, é melhor, não é?
acho que sim.
até já.

posted by garfanho # 19:27
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Domingo

ainda n' O Folhetim. peça 38

O ajudante de farmácia pendurou a bata, foi à casa de banho passar a cara por água, lavar as mãos e compor o cabelo e, sob o olhar divertido da farmacêutica, passou pelas colegas com um sorriso maroto e o indisfarçável brilho no olhar das sextas-feiras. Vestiu o blazer, que só aparecia uma vez por semana, e preparava-se para se despedir com o seu melhor estilo quando a farmacêutica lhe comunicou de forma telegráfica:
– Hoje vou lá eu.
O homem estacou, confirmou que a doutora se lhe dirigira e deixou escapar, com uma primeira ponta de desânimo:
– Porquê?
– Porque sim – informou a doutora sem mais explicações. – A encomenda está pronta?
– Está, mas…
– Onde é que está?
– Já está na carrinha, mas…
– A chave?
A doutora procurava manter-se seca e breve, tentando não demonstrar piedade pelo desânimo do ajudante de farmácia. O homem sentira o “hoje vou lá eu” como uma brutal e inesperada bofetada e não o disfarçava. Tossiu nervosamente.
– Qual chave? – perguntou, num fio de voz.
– Da carrinha – respondeu a doutora. – Do que havia de ser?
O homem deixou pender os braços ao longo do corpo, sentiu os pés presos ao chão e a testa enrugar-se. Olhava a doutora sem esconder a perplexidade e o desconsolo que o oprimiam.
– A doutora quer mesmo lá ir? – insistiu, sem se mover, sem sequer pestanejar.
– Já disse que sim. – A doutora endureceu o tom. – Qual é a duvida, senhor Arlindo?!
– De certeza?
A doutora baixou os olhos. A expressão de desalento do ajudante era cómica. Era todo um tratado de abandono, de prostração, de desolação.
– Ó homem, a mulher não é nossa cliente? – A doutora falou com um sorriso quase compreensivo.
– É – suspirou o senhor Arlindo.
– Aquilo não é um estabelecimento comercial aberto ao público?
– Mais ou menos.
– Mais ou menos?! – A doutora irritou-se e esqueceu a cara de cão sem dono do homem. – O que é isso do mais ou menos?
– Não é bem um estabelecimento comercial…
– Não?!
– Nem é bem uma casa aberta ao público…
– Esses mais ou menos – a doutora acenava com a cabeça – e esses bens é que me confundem: Não é bem um estabelecimento comercial?! Não é bem uma casa aberta ao público?
– A doutora percebe…
– Não, homem, não percebo.
– Aquilo é uma casa de… – o senhor Arlindo hesitou, olhou em volta e disse baixinho: – Aquilo é uma casa de meninas, doutora.
– Ai, é?!
– Sim, é uma casa dessas e é mesmo à séria…
– Não acredito.
– Não?! – As rugas na testa do desanimado ajudante de farmácia aprofundaram-se e a boca não se fechou.
A doutora olhou-o já sem paciência e lançou:
– Oiça lá, ó senhor Arlindo, pensa que eu nasci ontem ou julga que eu sou parva?
– Diga? – A boca do homem permanecia aberta, as rugas da testa não se conseguiam vincar mais.
– Mas o senhor pensa mesmo que eu não sei que aquilo é uma casa de meninas? – questionou a doutora, olhando-o fixamente. – E que a D. Micas é a dona?
– Achava que sim…
– Achava?! Já não acha, é?
– Como a doutora disse que queria lá ir…
– E o que tem isso a ver para o caso?
– Pensei que, talvez…
– Ó senhor Arlindo – a doutora ergueu a mão e interrompeu-o –, desculpe lá, mas acha que alguém que trabalha nesta farmácia, e principalmente eu, que sou a dona, não sei que uma casa que nos encomenda todas as semanas caixas e caixas de preservativos, caixas e caixas de lubrificantes e caixas e caixas de halibuts, creme gordo e coisas dessas, é uma casa onde se pratica a prostituição? Acha?!
Instintivamente o homem teve de pôr a mão no balcão, como se precisasse de se apoiar. Fechou e tornou a abrir a boca sem emitir nenhum som. Fixou-se na parede atrás da doutora e ouviu-se dizer como se quisesse engolir a palavra:
– Desculpe?
– Uma casa de putas, homem. – Pela primeira vez a doutora achou que estava a ser demasiado directa para o inerte senhor Arlindo, mas o inesperado e injustificado aparvalhamento do homem complicavam-lhe os nervos. – O senhor acha que aqui alguém tem dúvidas?
O homem respirou fundo e percebeu pela expressão faíscante da doutora que estava a exagerar na tentativa de a levar a reconsiderar. Recuperou o tom e alguma da sua habitual postura:
– Não, de facto, não – declarou. – Acho que toda a gente sabe.
– Então, não sei qual é o seu problema. – A doutora começou a desabotoar a bata. – A chave da carrinha?
– Está no chaveiro – informou o homem, vencido, desapoiando-se do balcão.
A doutora percebeu a resignação do homem e perguntou de forma mais simpática, enquanto despia a bata:
– E o recibo?
– Está na carrinha.
– É muito material? – A doutora achou graça ao termo “material” e baixou a cabeça quando não conseguiu evitar abrir o sorriso.
– Está tudo em duas caixas, das médias, das azuis – explicou o ajudante, procurando o telemóvel no bolso do casaco, que segurou sem tirar.
– Então não há problema. – A doutora sorriu e começou a andar na direcção do homem, que se encostou ao balcão para a deixar passar. A mulher bateu-lhe nas costas, amigavelmente, e enquanto se dirigia ao interior da farmácia, para pendurar a bata e vestir um casaco, repetiu em tom de gozo: – Não há problema, pois não, senhor Arlindo?
– Se a doutora acha – disse o homem, virando-se para o interior da farmácia, onde a doutora entrara. Ergueu as sobrancelhas. Apertou o telemóvel e certificou-se, esticando pescoço, que não a via, nem ela a si. Tirou o telemóvel do bolso e escolheu no menu a escrita de mensagens. Hesitou, com receio que doutora voltasse de repente e o apanhasse a escrever uma mensagem.
– Só se o senhor Arlindo tiver lá alguma coisa combinada – gritou a doutora junto ao robot que ia buscar e entregava os fármacos para avio.
– Eu?! – Enxofrou-se o homem, devolvendo o telemóvel ao bolso ao ouvir os passos da patroa. – Eu… Alguma coisa combinada?!
A patroa aproximou-se a sorrir.
– Tem? – perguntou com ar trocista.
– Não – empinou-se o homem.
– Então, não há problema.
– Pois, se calhar, não há.
– E falo com quem?
– Quando?
– Quando lá chegar, homem. Falo com quem? – A doutora não conseguia desviar o olhar do desanimado semblante do ajudante. – E tire essa cara de enterro, para a semana vai você outra vez.
– Fala com o porteiro…
– Aquilo tem porteiro?
– Tem.
– Coisa fina.
– Fala com ele e pede para falar com a D. Micas ou com a Luísa… – o nome soou-lhe mal, hesitou, pigarreou e rectificou: – Com a D. Luísa. Ele quando vir a carrinha, trata logo disso.
– Entro com a carrinha?
– Entra. Tem estacionamento privativo.
– É?
O senhor Arlindo sorriu com ar triunfante como se o estacionamento fosse obra sua e explicou:
– Quando entrar, se o Rodrigues…
– Quem é o Rodrigues? – inquiriu a doutora, curiosa e satisfeita com o regresso do irritantemente confiante senhor Arlindo de sempre.
– O porteiro – esclareceu o ajudante de farmácia, com um travo de superioridade na voz. Abriu um primeiro sorriso, que suspendeu de imediato, e continuou em tom informativo mas ligeiramente alarmado: – Se ele não estiver a ver e não lhe indicar o lugar, passa por um Range Rover dourado e encosta à esquerda, atrás do jipe. Pára aí e fica entre a porta da entrada e a porta da cozinha…
– Mas o porteiro pode não me ver?
A doutora franziu o sobrolho, agora que sabia mais coisas sobre a casa parecia-lhe que era importante ser logo vista e ajudada pelo porteiro. Antes não tinha pensado em nada, decidira ir sem sequer pensar como se iria processar a entrega mas, agora que sabia qualquer coisa, começava a duvidar da sua decisão, pensava que havia muita coisa que podia correr mal e que era verdadeiramente estranho que a proprietária de uma farmácia fosse vista a entrar numa casa de meninas, mesmo que fosse só para fazer uma entrega.
O ajudante de farmácia percebeu a dúvida nas carregadas sobrancelhas da patroa e sorriu interiormente.
– O porteiro pode não me ver? – repetiu a doutora, pendurada no silêncio do homem.
– Pode – respondeu o senhor Arlindo, fazendo uma pausa para dar gravidade à situação. – O porteiro pode não a ver.
– E se ele não me vir, faço o quê?
O ajudante olhou rapidamente em volta como se fosse dizer um grave segredo.
– Tem de entrar. Às vezes, o porteiro está lá para dentro – informou displicente. O senhor Arlindo crescia com o silêncio atento da doutora. – Entra, vai até ao balcão e pergunta pela D. Micas ou pela D. Luísa… – Calou-se com estrondo teatral. Contemplou a doutora de cima abaixo em concentrado silêncio, coçou a bochecha esquerda, o nariz e o queixo, que ficou a acariciar pensativo, franziu o sobrolho e acenou com a cabeça negativamente.
– O que foi agora? – Não conseguiu a doutora calar.
– Hmmm… – o senhor Arlindo sentia a esperança renascer. Ergueu as sobrancelhas e arremelgou os olhos, enquanto aproveitava para, justificadamente, apreciar com lúbrica minúcia cada centímetro, cada curva, cada detalhe do corpo da doutora. Entusiasmado, mas sem se esquecer de continuar a acariciar lentamente o queixo, nem de manter o ar sério, pensativo e preocupado, o senhor Arlindo não se apercebeu de dar um passo atrás, para passar dos pormenores para o conjunto, nem de abrir a boca (por sorte a língua não saiu, nem ficou pavlovianamente a pender), nem teve consciência de dizer, enquanto ofegava: – Bem… Bem…
A doutora que esperava uma explicação para tão inesperado e enxovalhante comportamento do seu ajudante de farmácia, que só faltava babar, olhava-o petrificada, sem reacção, ainda que se sentisse de novo a recomeçar a entrar em ebulição.
– Deus existe – murmurou o senhor Arlindo quase em extâse, que terminou no momento em que ele se ouviu dizer aquelas palavras.
Envergonhado, o homem passou a mão do queixo para a boca e forçou uma tosse de conveniência. Baixou os olhos para, disfarçadamente, conferir o vulcânico espanto da doutora e antes de saber o que dizer o vulcão entrou em erupção:
– Deus existe?! – A doutora falou alto. – Deus existe?! Que raio de conversa é essa a olhar para mim, senhor Arlindo?
– Ah… Ah… – balbuciou o homem sem levantar os olhos dos sapatos. – Não estava a olhar para a doutora, doutora…
– Não?! Olhe que ninguém diria.
– Não, quero dizer… – o homem levantou a medo os olhos para descobrir as faces vermelhas da patroa e o seu olhar mortífero. – Estava a olhar mas não a estava a ver…
– Olhe que também ninguém diria, senhor Arlindo…
– Não, quero dizer… estava a vê-la mas estava a pensar noutra coisa – o homem ganhou cor quando sentiu algum terreno debaixo dos pés. – Estava a pensar na situação, doutora, na situação da senhora lá aparecer assim… ainda para mais… – gaguejava, mas já recuperara o controlo e sentia que era a última hipótese de recuperar a sua ida à casa da D. Micas, que sentia como um direito laboral, tão certo e legítimo como o subsídio de refeição ou o pagamento das horas extraordinárias. – Ainda para mais, aparecendo assim tão bonita – continuou. – Os homens que não a conhecem podem ser desagradáveis, se a senhora não encontrar logo o porteiro ou a D. Micas.
A doutora acenou com a cabeça concordando com a ideia que o senhor Arlindo apresentava. “A coisa podia ser desagradável”, pensou, preparada para desistir, “mas, por outro lado, tinha uma certa graça” sorriu lisonjeada, ainda não totalmente convencida a abandonar a sua reivindicativa curiosidade.
O senhor Arlindo olhou por cima do ombro direito da doutora para ver as horas, largou o telemóvel, tirou a mão do bolso do casaco e esperou, quase certo do resultado, a capitulação da patroa.
A doutora seguiu-lhe o olhar enquanto ele via as horas, reparou depois no súbito aparecimento da mão saída do bolso e pressentiu nele um ligeiro sorriso debochado. “Que se lixe a taça”, pensou, encolhendo os ombros, e perguntou em tom profissional de patroa para empregado:
– Além da Micas, peço para falar com o Rodrigues ou com a Luísa, não é?
Surpreendido, o homem não conseguiu verbalizar uma resposta, limitando-se a anuir com a cabeça. A mão voltou ao bolso e ao telemóvel.
– Quer algum recado para alguém, senhor Arlindo? – troçou a doutora, encaminhando-se para a porta de saída.
O homem, regressado a seu desencantado ateísmo, escarrou um não que lhe encheu a boca toda.
“Vou jantar com os miúdos”, decidiu, “e vou lá mais tarde”.

posted by garfanho # 02:35
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Quarta-feira

O Brinde

Ela deu uma sonora gargalhada demente e ele arrependeu-se imediatamente de ter concordado com o “joguinho”.
– E agora como te sentes? – perguntou a mulher, num tom contido, mas friamente ameaçador.
Assustado, ele lembrou-se dos legumes que ela comera em vez das batatas fritas, da conversa de ter acabado a meia-maratona, de ir ao ginásio todas as manhãs antes de ir trabalhar, de três vezes por semana praticar natação à hora de almoço e de ir todos os dias para o trabalho a pé. “Seis quilómetros”, dissera-lhe como se isso fosse uma coisa boa. Aflito, tentou sorrir, como se estivesse à vontade.
– Bem… – Teve de tossir para compor a voz. – Sinto-me bem – declarou, tentando parecer sereno. – Estou à espera…
Ela repetiu a gargalhada e acabou de se despir. Olhava-o e sorria, mas com um sorriso nada amigável. Um sorriso malévolo, aterrorizante.
Ele respondia ao sorriso, enquanto, disfarçadamente, forçava as algemas que o prendiam à cama.
– São de brincar? – perguntou, quase em pânico, quando lhe viu o corpo esculpido, as carnes secas, os abdominais perfeitos e as pernas e braços sem ponta de gordura.
Sem fechar o sorriso, ela levantou os braços e apanhou o cabelo num rabo-de-cavalo, obrigando-o a admirar a perfeição dos seios, redondos e duros.
– São para brincar – respondeu ela, reparando nos nervosos movimentos nervosos das mãos dele –, não são de brincar – concluiu, com um temível brilho no olhar.
– Estás a falar de quê? – perguntou ele, já esquecido da sua pergunta ou das algemas, magnetizado como estava pelos seios maravilhosamente esculpidos que se espetavam apetecivelmente na sua direcção.
A sobrancelha esquerda dela baixou, sinalizando a desconfiança que a pergunta dele lhe causara. Olhou para as mãos dele, agora imóveis, e fixou-lhe o olhar, que continuava cravado no seu peito. A sobrancelha direita solidarizou-se com a esquerda e, ambas, carregadas como uma tempestade tropical, quase que se uniram, obscurecendo-lhe o olhar e o rosto:
– São de brincar?! – murmurou ela, olhando os seus seios, e lançou-lhe com raiva: – O que é que estás a insinuar?!
– De quê?! – cacarejou ele. – De quê?!
Apavorado, o homem perdeu o controlo do rosto e, sincronizadamente, os seus lábios e pálpebras efectuaram movimentos semelhantes e, como numa repartição pública, os superiores afastaram-se dos inferiores, como se estes tivessem tinha. E ele deitado, nu, de mãos algemadas e olhar perdido, estabeleceu uma nova definição para o ar de parvo masculino – o que não é fácil, convenhamos. De boca e olhos escaqueirados, estáticos, expectantes, em pânico, olhava-a num silêncio sepulcral. Por sorte, o indicador direito quis juntar-se ao nariz, num habitual tique nervoso de desunhada coçagem, e, num súbito clarão, disparou:
– Eu estava a falar das algemas. Das algemas. São de brincar? As algemas, as algemas são de brincar?
– Ah – suspirou ela, friamente, como faria um contrariado carrasco na Florida com uma súbita, mas temporária, quebra de energia. – Por momentos, pensei que estavas a… – Calou-se, preferindo não verbalizar tão iníquo pensamento.
– As algemas estão a apertar-me – queixou-se ele, conseguindo emitir em tom de brincadeira para não dar parte de fraco.
– Hmmmm… – por uma vez ela fez um sorriso normal. – Faz parte do jogo, querido, faz parte do jogo – disse, encolhendo os ombros enquanto se dirigia ao fundo da cama. Parou e observou-o com atenção.
Mexeu-lhe nos pés com desdém e, com ar enjoado, inquiriu:
– Não cuidas muito bem dos teus pés, pois não?
Ele ergueu as sobrancelhas espantado, sem perceber o alcance da pergunta.
Ela fez um esgar de desprezo e desconforto.
Ele tentava, com muito esforço, disfarçar os seus verdadeiros sentimentos e mostrar-se tranquilo.
– Eras tu que dizias que os homens gostam de estar nas mãos das mulheres, não eras?
Ele mostrou os dentes, mas não conseguiu sorrir.
– E agora? – ela repetiu ao milímetro a gargalhada demente de quando acabara de fechar as algemas. – Ainda pensas o mesmo?
Ele ergueu o pescoço e acenou com a cabeça positivamente.
Ela sorriu, esperou que ele se sentisse confiante para abrir um sorriso tímido em resposta e, com estudada brusquidão, fechou o sorriso e sussurrou:
– “God, I love you”
Reconhecendo a frase e o filme, ele ficou lívido, deixou de sentir o corpo e sentiu-se diluir no colchão.
Olharam ambos para os pés dele.
Ela riu, ele não.

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